sábado, 23 de janeiro de 2010

Das janelas da minha escola



Venho partilhar convosco, os que não têm o privilégio de ficarem algumas horas numa das tais janelas da minha escola, uma experiência que é muitíssimo hilariante…
Começa o dia e, de qualquer janela, vejo dezenas de alunos a fumarem os seus charros antes do toque de entrada da manhã, enquanto os dealers se afadigam entre entregas e trocos, a maior parte das vezes utilizando o capot de um carro onde não esteja ninguém sentado. Invariavelmente, são os mais pontuais. Como é sabido, os alunos devem-se divertir na escola e as aulas são muito mais engraçadas quando metade dos alunos está pedrada… Como tal, os alunos dealers fazem o seu importantíssimo trabalho com eficácia e atenção. Depois, uns entram para usufruírem do espectáculo que é uma aula dada a alunos nessas condições, em que o professor é o palhaço de serviço e é-o tanto melhor quanto mais tentar travar a insolência e as risadas irreprimíveis que aquelas almas não conseguem evitar…
Lá fora o trabalho continua, pois vão chegando os mais retardatários e já começam a aparecer os que foram para a rua ou porque, simplesmente, não lhes apeteceu estar lá mais tempo e resolveram sair. Como se sabe, estão no seu direito… Há um que se lembra de executar a nova moda, o lançamento de bombas de ácido com não sei mais quê. Enche uma garrafa com um ácido qualquer enfia-lhe uma prata, ou lá o que é, e o engenho é arremessado ou deixado à porta ou dentro do caixote de lixo de uma vizinha. O estrondo dá-se, potente, e da fumarada resultante sai uma moradora a tentar afastar com uma vassoura a garrafa que vai ardendo, entre as risadas e bocas dos alunos que se vão divertindo e, como já prepararam outra, a atiram para perto dela obrigando-a a fugir antes que rebente…
É a altura de telefonar para a portaria. Olhe, avise o segurança que já começaram as bombas… Já ouvi professor, já chamámos a polícia. Agora é preciso é que eles cheguem… Está bem, obrigado. Nada, mais bombas, mais risos e mais alunos sentados em grupos por tudo o que é carro estacionado… Os mais incautos apressam-se a ir retirar os seus carros do local onde o estacionaram, não vão acabar por pegar fogo, como, por vezes, acontece… São os alunos a aplicarem os seus conhecimentos noutras situações fora da sala de aula. Um Golf vermelho a gasolina e com mais anos que a avó do Matusalém, com umas letras pintadas a dizer nem sei bem o quê, estaciona na ponta oposta. É a polícia, cuja chegada se anuncia, primeiro e antes da vista nos informar da sua presença, pelos apupos, vaias e insultos com que os alunos os brindam… São só dois, não se vão lá meter… Entram para a escola e vão falar com a direcção. Mais bombas. O delírio aumenta, na mesma proporção do consumo de charros… Chegam mais dois ou três carros daqueles mais regulamentares e o ambiente vai ao rubro, quem não soubesse pensaria tratar-se de um jogo de futebol.
Saem dos carros e espalham-se aos grupos pelo meio da rua, enquanto dentro da escola e por detrás dos carros os alunos os vão brindando com tudo o que aprenderam da leitura de Gil Vicente. Ali ficam. Não revistam ninguém, não abordam ninguém, não fazem nada senão escutar a prosápia vertida pelas gargantas dos alunos, agora mais satisfeitos porque chegaram mais palhaços para mais e melhor os animar. A escola está fixe, assim já se começa a justificar o emprego das verbas que deveriam servir para lhes aumentarem os subsídios para poderem comprar mais droga e mais ácido para fazerem explodir, mas tudo bem, o divertimento também é importante…
Finalmente, após uma hora de exposição pública aos alunos e como estes já começam a ficar sem voz, vão-se embora, com muita pena dos alunos que consideram um direito adquirido competirem entre si a verem quem insulta e toureia melhor os agentes da autoridade. Novas bombas explodem por vários lados e volta a vizinha, o incauto que por ali estacionou e eu vou-me embora. Acabei de cumprir as minhas horas de componente não lectiva, não sem antes perguntar se querem saber quem atirou as bombas ou coisa assim, mas não, eles já sabem quem são, não vale a pena. Ok, vou dar aulas.

12 comentários:

bulimunda disse...

Isso é na tua escola...?Porra...no comments...

quink644 disse...

Sim, não nos podemos queixar por falta de animação :-)

quink644 disse...

A única coisa que me surpreende é ainda não se terem lembrado de utilizar garrafas de vidro ou de lhes acoplarem garrafas com gasolina... Eles levarão tempo, pois os seus conhecimentos não são muito, mas chegarão lá...

António Duarte disse...

A permissividade das autoridades - seguindo ordens superiores, deve dizer-se - em relação ao tráfico e consumo de droga nas escolas é escandalosa. Discute-se tanta treta neste país e não vejo um debate nacional que devia existir sobre estas matérias.

Ainda me lembro de as polícias entrarem com cães nas escolas e facilmente encontrarem as mochilas dos alunos que tinham ou já tinham tido drogas no seu interior.

Actualmente estas acções estão proibidas. Porquê? Que interesses se protegem com esta política? Os pais estão de acordo? O povo está de acordo? Porque é que há um autêntico pacto de silêncio nesta matéria?

Helena disse...

António Duarte, "o que não é visto não é lembrado".
A lei só se aplica a partir dos 18 anos...

quink644 disse...

A lei não se aplica, independentemente da idade, já que muitos destes 'alunos' têm mais de 18 anos...

Anónimo disse...

Que tal colocar a diversão no toutube? Sá assim passa a ser verdade porque envergonha a escola e a polícia.

quink644 disse...

Compreendo, contudo sou professor e não jornalista... Além disso, será por ali que vou ter que sobreviver e como também não sou kamikaze...

Mvaz disse...

Impressionante.

Irrelevante disse...

Como venho dizendo há anos, vive-se uma conspiração de silêncio. Os professores, os empregados, os alunos, os pais, os polícias, não são kamikazes. E a marginalidade toma conta do País.

A Extrema-Direita ganhou terreno na Europa por estas e outras. Se formos aos EUA vemos bairros em que a Polícia já não entra e o tiroteio é permanente.

Mães solteiras a viver de "RSI", com filhos de vários pais traficantes, vão gerando e criando futuros marginais e subsidiodependentes. Nos condomínios fechados, os ricos e poderosos estão a salvo. Quem paga tudo? Eternamente a chamada classe média.

E vamos andando, neste evoeiro, nesta anestesia... Quem tem dinheiro põe os filhos no colégio particular, onde os marginais não são admitidos. Quem não tem, reza todos os dias para que as filhas e filhos cheguem a casa intactos. De vez em quando descarregam nos professores e nos funcionários.

Raciocinem comigo: se tratam assim a Polícia, como tratam os profesores e sobretudo os funcionários? E o terror dos alunos pequenos?

E gabava-se a anterior Minstra Mª de Lurdes, com aqueles olhos em alvo e expressão narcotizada:

"Mas nós fomos buscar esses alunos a casa" - referia-se a esta malta, os CEFes, que deviam estar em escolas técnico-profissionais e colégios internos.

Vou "linkar" este post no meu não-blog, ok?

O Irrelevante

José Augusto Nozes Pires disse...

Estes jovens inocentes e ingénuos que são uns anjos (Topas?)só necessitam de auto-estima (Psicólogo dixit)...Os profs., não.

Irrelevante disse...

Bem-Haja, Nozes Pires! Falou pouco mas disse muito!