segunda-feira, 2 de fevereiro de 2009

Lembrando António Sérgio...

Li, sem grande surpresa mas com grande consternação, que são os professores contratados, os mais novos, que estão a entregar os objectivos individuais e, com isso, a boicotarem um processo de objecção a um corpo legislativo absolutamente estúpido e extremamente penalizador do país e da profissão.
A ausência de surpresa deve-se ao que tenho visto nesses jovens professores. Salvo honrosas excepções, são uma cambada de cobardes absolutamente servis e, portanto, sem o mínimo das condições exigidas para leccionarem numa escola que deveria pretender formar homens livres e não meros carneiros. Contudo, e embora talvez eles próprios já sejam vítimas desse modelo educativo castrador de liberdades e fomentador do mais miserável servilismo, deveriam fazer um acto de contrição e tomarem consciência que não se pode ensinar ninguém a andar de costas direitas quando o exemplo que vêm é de alguém que rasteja, no intervalo das vénias, pelos corredores e salas das escolas. Isto parece-me ser do mais elementar bom senso. Infelizmente conheço-os e sempre me espantou esta cobardia miserável, sobretudo da parte de quem tem mais a perder com o novo pacote legislativo e teria menos consequências no caso de o ajudar a fazer implodir. Os contratados parecem não perceber que são, cada vez mais, o núcleo fundamental do modelo escolar demencial que tem vindo a ser implementado, já que, por não estarem na carreira e por isso auferirem os mais baixos salários sem quaisquer regalias, são os mais apetecíveis para a vil mentalidade que nos tutela.
Como a enormíssima maioria da classe docente, também eu fui contratado durante vários anos e andei por aí à maçã do chão, como sempre costumei dizer. Como tal, conheço bem a situação, mas nunca verguei as costas, nem nunca deixei que me pusessem a pata em cima, pelo contrário, sempre pautei as minhas atitudes pelo mais elevado padrão de exigência e respeito. Ouvia os mais velhos e procurava aprender com eles o que achava que me era útil e respondia-lhes frontalmente quando necessário. Aprendi que os professores eram uma classe nobre e livre, precisamente por não se deixarem vergar, subjugar e não terem patrões a quem tivessem que responder servilmente, tínhamos colegas que ocupavam, por vezes, funções de chefia e era tudo.
Nos últimos anos, o que tenho reparado é que cada fornada de jovens colegas vem pior que a anterior, têm medo de tudo, obedecem a tudo, fazem de tudo e para quê? Para serem ainda mais espezinhados do que já são? O que espera ganhar com isso essa canalha cobarde que tem invadido as escolas? Como podem esses indivíduos, que não têm respeito por si próprios, ensinar futuros cidadãos a serem livres e a exigirem para si o respeito que todos merecemos? Deixem-me invocar António Sérgio, passados quarenta anos sobre a sua morte, a 24 de Janeiro de 1969, pedagogo e pensador brilhante que permanece mais esquecido do que no tempo de Salazar. Não será, sem dúvida, por acaso… Dizia, pois, o nosso estimadíssimo Sérgio em 1915: A albarda da resignação trazemo-la todos da escola.[1] É isto que querem perpetuar? Julgo-me afortunado por ter conseguido escapar a este destino mas, em grande parte, devo-o aos meus professores e aos meus colegas que me ensinaram a pensar pela minha cabeça e a resistir e lutar contra o que não considerava ser correcto. É grande parte do que tenho ensinado aos meus alunos e aos colegas mais novos com que lido, porém cada vez mais me parece falar para o boneco, essa gentinha já me aparece tão formatada que é quase impossível trespassar a albarda da resignação em que os formaram. Hoje vivemos um momento gritante em que essa experiência de vida os pode fazer deitar tudo a perder, ou se endireitam agora ou viverão curvados para sempre. Por isso não tenho parado de vos exortar, de escrever e tentar passar esta mensagem que julgo ser vital para a sobrevivência da intelectualidade e mocidade portuguesas.
Ainda vou mais longe, e continuo a lembrar-vos António Sérgio,[2]o objectivo mínimo para qualquer aluno de qualquer escola é não lhe fazer mal… A escola tem sido um acervo de coisas maléficas, de tratos diabólicos, de prescrições tirânicas: e é já importantíssima reforma a simples anulação das coisas más. Grande programa: não fazer mal![3] E, infelizmente, nós pactuámos com isso, esta reforma do ensino é um exemplo acabado de um programa para criar escravos, sobretudo nos cursos profissionais, que não é mais do que um ensino de segunda para impedir qualquer concorrência futura com os educados no ensino regular. Obviamente, para criar um ensino formador de escravos servis, ter-se-ia que operar, primeiro, a escravização e servilização dos professores, homens livres e de livre pensamento recusam-se a formar escravos, foi precisamente isso que a nova legislação veio fazer, nomeadamente através dos novos estatuto da carreira docente e gestão escolar. É por isso que me tenho batido tanto contra tudo isso e custa-me aceitar que colegas meus o não entendam… Essa canalha está a pactuar com a canalha que quer fazer mal à escola pública e aos alunos, quer formar cidadãos servis que aceitem tudo sem pestanejar e é contra isso que erguerei sempre a minha voz. A minha avaliação está feita, é clara e que se lixe a deles. Recuso ser servil e mais ainda, recuso a ensinar alunos a tornarem-se escravos incutindo-lhes a albarda da resignação de que nos falava António Sérgio. Talvez por isso, pelo menos assim espero que seja, a sua sobrinha-neta, Matilde Sousa Franco, deputada do PS, tenha sempre votado contra, por ter lido e percebido as obras e a lição que o seu ilustre parente nos deixou. Apenas lamento que no artigo que escreveu, recentemente, num jornal, não tenha aludido claramente a tudo o que aqui deixo dito e que, em enormíssima parte, pertence a este, injustamente esquecido, pensador e, para mim, figura cimeira do século vinte português. Ganhou o seu arqui-rival? Sinal dos tempos e da merda de povo em que nos tornámos.

Notas:
[1] Cf. Educação Cívica, 1915, foi reeditado, em 1984, pelo Ministério da Educação e, apesar do número de 25 000 exemplares garantir que existe em quase todas as escolas, devia ter sido lido pelos professores e não foi…
[2] Cf.“Divagações pedagógicas. A Propósito de um Livro de Wells.” 1923 in Ensaios, tomo II, Sá da Costa.
[3] Seria bom para os amantes de tudo o que é estrangeiro que se dessem ao trabalho de ler Karl Popper, que viria a escrever esta ideia mais de quinze anos depois… Contudo, como eu já sei o que a casa gasta, poupo-vos esse trabalho e transcrevo o texto… “o princípio de que aqueles que nos são confiados, antes de mais, não devem ser prejudicados, deveria ser reconhecido como tão fundamental para a educação como o é para a medicina. ‘Não causes dano’ (e, portanto, ‘dá aos jovens aquilo de que mais urgentemente necessitam a fim de se tornarem independentes de nós e capazes de escolher por si mesmos’) seria um objecto valiosíssimo do nosso sistema educacional, cuja realização é algo remota, embora nos pareça modesto.” Karl Popper, A Sociedade aberta e os seus Inimigos (escrito entre 1938 e 1943), Editorial Fragmentos, Lisboa, 1993, 2ºvol., p.271. Isto, meus caros, era precisamente o que defendia e escrevera António Sérgio muitos anos antes…

7 comentários:

Anónimo disse...

É perturbador, sem dúvida, que o modelo organizacional das escolas assente em princípios empresariais. Ainda mais perturbador é sentir que nem os colegas mais velhos estão a aceitar esta cultura da subserviência que se tem vindo a instalar, paulatinamente nas nossas escolas. Questiono-me se ainda resta alguém que tenha estudado António Sérgio ou outros pensadores como John Dewey , que deles tenha retirado princípios básicos absolutamente necessários a uma prática conducente à formação de cidadãos livres e pensantes. Quando me detenho a observar as atitudes de muitos de nós sinto a angústia enorme e o medo de que a minha agencialidade seja idêntica à de um funcionário do notário... Assusta, sim: forma-se um nó na garganta a desatar algures... Não vou dizer mais nada. ( sobre os nossos colegas mais novos, recuso-me a discutir questões destas com eles porque nem sequer acederam a uma estatura mínima exigida que permita desenvolver este tipo de discussões. C'est la vie...

Beijos, Quink.

MG

Anónimo disse...

"A ausência de surpresa deve-se ao que tenho visto nesses jovens professores. Salvo honrosas excepções, são uma cambada de cobardes absolutamente servis e, portanto, sem o mínimo das condições exigidas para leccionarem numa escola que deveria pretender formar homens livres e não meros carneiros". Palavras sábias estas! Foi pena que não as tenha lido aquando do simplex do ano passado. Nessa altura, a avaliação tinha mesmo de ser para "os contratados coitados", servidos como um prato de lentilhas. Um bem haja.

quink644 disse...

Caro/a Anónimo/a das 20:54,
no que respeita à parte que me toca, se não leu foi porque ou não quis ou não encontrou a informação. O texto que antecede este foi escrito por essa altura e as minhas posições não só são claras como estão ao dispor de quem as quiser ler, as de hoje e as de há seis ou oito meses atrás.
Sempre fui, sou e serei contra o famigerado memorando e, se me fizer justiça, vê-lo-á nos meus posts.
Continuo a defender o mesmo que há dez ou vinte anos, os contratados deveriam ser integrados nos quadros e tudo o que vá além disso é não só injusto como ofensivo Obviamente, os quadros têm limites, mas há décadas que elas não são preenchidas, precisamente e só, porque fica mais barato...
A luta por um exercício justo e dignificante da profissão passa por uma verdadeira abertura dos quadros, que coloque os professores que o sistema precisa e lhes pague condignamente. Os contratados são, e sempre foram, imprescindíveis para as escolas. Deviam era deixar de ser contratados e terem uma carreira normal... Eventualmente, necessidades residuais e pontuais seriam preenchidas por esse tipo de contractos, mas seria uma infinitésima parte do sistema. Mesmo para as substituições temporárias e previsíveis, como doenças, partos e coisas assim, devia haver um quadro para garantir uma substituição imediata desse professor. Saía muito mais caro? Claro que sim, mas a educação é um investimento a longo prazo e sempre passou, passa e há-de passar pelos professores...
Contratados,titulares, ordinários, temporários ou o raio que os parta a todos...
Fui mais claro?

Von Paulus disse...

Brilhante texto! Não diria melhor! Os meus parabéns! Infelizmente os livres pensadores tendem a tornar-se uma minoria. Mas se tiver de ser, tornar-nos-emos a elite que guarda a Luz dos Homens Livres.

José Luiz Sarmento disse...

Se os professores tivessem um código deontológico bem claro e se o primeiro princípio desse código fosse "não causar dano"...

Mas em vez disso têm um código disciplinar, e o primeiro princípio deste é servir o poder político e/ou económico do momento.

Para assegurar que continue a ser assim é que nunca foi permitida a criação duma Ordem dos Professores.

FF disse...

Como Professora da Escola António Sérgio (VNG), passada a semana do patrono, fiz questão de nas minhas aulas, de Português do 10ºAno, debater a seguinte citação: "Caminhe-se pela Liberdade através da Liberdade.". Nessas mesmas aulas escolhi o poema "Liberdade" de Manuel Alegre para analisar e despertar os jovens para uma nova consciência política e social. Posso dizer que, já não me lembrava de ter alunos tão interessados em participar nas aulas. QUERO REFERIR que o programa contempla estes contéudos... não vá a MM, da DREN, pensar que estou a fazer alguma "campanha".

quink644 disse...

No meu entender, António Sérgio é um dos portugueses mais ilutres e mais mal reconhecido do século vinte português e, mesmo, da nossa história... Já misturar Manuel Alegre com ele... não consigo ver muito bem onde... Tivesse ele nascido alemão...