segunda-feira, 20 de outubro de 2008

Justiça à portuguesa

segunda-feira ● 24horas ● 20/10/08 nacional 07
o jornal do cidadão

Freira presa por 50 euros
NÃO PAGOU BILHETE DE AUTOCARRO NEM MULTA E O JUIZ MANDOU-A PARA A CADEIA

Uma religiosa de aproximadamente 60 anos está a cumprir pena superior a um mês de prisão na Cadeia de Santa Cruz do Bispo, Matosinhos, por não ter pago bilhete do autocarro, no Porto, apurou o 24horas junto de fontes ligadas aos serviços prisionais. Um agente da PSP tentou evitar a prisão, mas já havia mandado emitido pelo juiz do Tribunal de Pequena Instância Criminal do Porto para ser presa. “Foi condenada a pagar cerca de 50 euros ou em alternativa em um mês de prisão efectiva e como não pagou dentro do prazo, o Tribunal de Pequena Instância Criminal do Porto emitiu então o respectivo mandado de condução à prisão”, disse a fonte ao 24horas, após o alerta dado por um agente do Comando Metropolitano da PSP do Porto.
O mais caricato é que tudo começou com uma agressão contra a religiosa. Segundo um agente da PSP, que pediu anonimato, “a senhora anda a rezar nos bairros problemáticos do Porto e quer retirar os mais novos das malhas da droga”. Mas, no Bairro do Lagarteiro, um grupo de traficantes não achou graça à religiosa, insultando-a e batendo-lhe, por pensar que era uma “chiba” (informadora) da polícia. “Os traficantes pensavam que a senhora seria nossa informadora, não estiveram com meias-medidas e deram-lhe uma sova”, ainda segundo o polícia. Transportada para a Esquadra da PSP do Lagarteiro, constatou-se que tinha um mandado de condução imediata. “Tivemos de a levar logo para Santa Cruz do Bispo”, disse ao 24horas um agente da PSP. “Não podíamos fazer nada”, acrescentou o polícia.
Missão religiosa, Maria Amélia Guedes integra no Porto uma congregação religiosa, dedicando-se a tentar converter marginais dos bairros sociais do Porto, por sua conta e risco, à revelia dos superiores, apurou o 24horas.“É uma pessoa muito generosa, vai para o terreno actuar e depois acontecem-lhe situações embaraçosas como esta”, segundo fonte ligada à instituição. É oriunda de uma família muito rica de Vila Nova de Famalicão, mas é desprendida de bens materiais. “Dá tudo o que tem e depois não pára, anda de bairro em bairro, entende que dada a sua missão, se não tiver dinheiro, nada a impede de andar dentro dos autocarros para chegar aos que mais precisam”, disse uma guarda-prisional que conhece bem a irmã Amélia. “Não é a primeira vez que isto lhe acontece, mas tantos dias de prisão por tão pouco dinheiro é coisa que não lembra nem ao Diabo”,referiu.
Por um punhado de euros.
A situação que se vive agora na prisão feminina de S.ª Cruz do Bispo, é em tudo idêntica a outras que já têm sido constatadas noutras cadeias. Em Custóias, a maior do Norte do País, destinada a presos preventivos, têm dado entrada pessoas que nunca tiveram problemas com a Justiça, devido a questões envolvendo dezenas de euros. Penas de multa, por não pagarem o bilhete do autocarro é só um dos exemplos. Mas há pessoas privadas da liberdade, da família e do trabalho, só porque não têm dinheiro para pagar multas relacionadas com o trânsito .“Nem no tempo da ditadura tal acontecia”, disse ao 24horas um agente da PSP que conhece bem o Bairro do Largateiro, em cuja esquadra já trabalhou e está agora colocado na Divisão de Investigação Criminal (DIC) da PSP. ■

7 comentários:

António disse...

Isto envergonha-me como Cidadão como Português e Europeu que dizem que sou. Isto acontece num pais que dizem que vive em liberdade onde dizem que há democracia onde gente poder de rica que não é capaz de justificar de onde lhe veio a riqueza. Isto é Portugal onde há Magalhães. Magalhões e outros tubarões. Isto é uma grande MERDA, isto não é um pais, isto é uma coisa. Haja indignação! Este blogue que lance uma campanha de indignação nacional, na televisão pública, privada, na rádio, nas rádios locais, nacionais… Isto tem que acabar. VIVA A DEMOCRACIA que não é esta em que vivemos.
Por favor divulguem esta notícia por todos os meios que forem possíveis!
HAJA INDIGNAÇÃO porra!

Jaime Dinis disse...

O meu comentário ao Post " O que é Isto?" - 04/10/2008

"...Concluo então que a justiça vê muitíssimo bem e que aquela balança obsoleta usa vários pesos e várias medidas.
Logo, a justiça social é uma farsa.
E isto, sim: Revolta-me e indigna-me.
Cumprimentos,

4 de Outubro de 2008 9:45"

quink644 disse...

António, ponha lá o seu comentário no plural...

antónio pina disse...

tenho que confessar: com freiras tenho o mesmo problema que o luis buñuel. mas desta vez creio que até o ditoso vate da imagem me perdoaria. estou do lado da freira. porra de país. mas que raio de portugueses é que agora vão a fátima. petição em defesa da freira , já!

quink644 disse...

Como não descobria uma palavra capaz resolvi inventar uma: Asconha... um misto de asco e vergonha.

Anónimo disse...

Nem tudo o que parece é; cuidado com o tipo de jornais que andam por aí.

DN ONLINE (23.10.2008):

"É a quinta vez que a falsa freira de 57 anos que foi presa no Bairro do Lagarteiro, no Porto, por não ter pago uma multa de 50 euros, cumpre prisão pelo mesmo tipo de crime, disse ao DN fonte da Direcção-Geral dos Serviços Prisionais.

Detida no dia 16 e condenada a 33 dias de prisão pelo crime de burla no Estabelecimento Prisional Especial de Santa Cruz do Bispo, a mulher não deverá cumprir a totalidade da pena porque um familiar já pagou a multa, informou a mesma fonte, pelo que "a todo o momento pode ser restituída à liberdade" - a multa em causa diz respeito a um bilhete de autocarro que não terá pago.

No seguimento de notícias, na segunda-feira, sobre alegadas agressões a uma freira por moradores do bairro, o assistente social António Pinto [que as desmente] diz-se "indignado", até porque, garante, a falsa freira - que já calcorreou outros bairros para "evangelizar" os moradores - impressionou muita gente.

"Andamos aqui a tentar construir uma identidade positiva daquelas famílias e este estigma [da violência] é muito agressivo", diz, lamentando que o seu serviço de atendimento tenha estado vazio nos dias em que a mulher esteve no bairro.

Supostamente oriunda de uma família abastada de Famalicão, a falsa freira, que costuma vestir-se como se usasse um hábito, com saias compridas e um lenço na cabeça, não pertence a qualquer congregação e terá problemas do foro psíquico. A mulher acredita que tem um dom e terá mesmo convencido disso mesmo alguns moradores nos dois dias que passou pelo bairro. "Passam horas a ouvi-la, contam-lhe as angústias e problemas e canalizam toda a esperança para aquela senhora", relata ainda António Pinto. Na prisão, onde a chamam "irmã", a falsa freira - que recusou a oferta dos moradores do Lagarteiro para lhe pagar a multa - terá mesmo pedido a visita do assistente social para lhe transferir os poderes que, acredita, lhe foram concedidos por Deus."

quink644 disse...

Eu vi essa notícia, a que aliás me referi noutro post e se compagina com o quadro que aqui descrevi. No entanto, o lugar das pessoas com problemas psiquicos, mas inofensivas para a sociedade,´pode ser num hospital, numa consulta de psiquiatria ou outro local qualquer, nunca, mas nunca na prisão... Ou não lhe parece? Se uma pessoa sofre de problemas mentais, o que me parece ser o caso, deve ser ajudada e não presa.
Um juiz, para o ser, detecta facilmente essa situação e, se tiver dúvidas, tem o poder de solicitar a presença de um psiquiatra que lhe esclareceria a situação. O que aconteceu, pois, foi um acto de pura injustiça, proferido por um juiz que devia, ele próprio, passar os mesmos 33 dias na cadeia e de seguida ser reenviado para o quadro dos excedentários...