segunda-feira, 6 de outubro de 2008

No país da bandeira de croché...


Quando os Homens preferiam quebrar a torcer...

Olhar para trás e para a história é das coisas que mais me atraem e atraiu sempre, porém esse olhar prospectivo sempre teve, e continua a ter, como objectivo o futuro. Desde cedo, e criado num ambiente onde imperavam conceitos hoje esquecidos, senão mesmo desconhecidos, acabei por ficar refém desse conjunto de valores em que nasci e cresci. É sabida a importância da nossa meninice e juvenilidade na formação da nossa personalidade e na dificuldade que há em lhe escapar, sobretudo quando se continua, em adulto, a concordar com os valores em que fomos criados. Esses valores tinham nomes esquisitos como respeito, palavra, coragem sendo enquadrados pelo ente supremo, uma quase platónica ideia de bem supremo, que era a honra. Ser honrado era tudo e tudo começava e terminava pelo respeito a esse valor ao qual todos os outros se submetiam.
Também desde a infância me ensinaram e me dei conta, para o melhor e o pior, de que não éramos todos iguais. Daí nasceu a necessidade da formulação de um pensamento político que, tendo dado conta não existir nenhum modelo no qual me revisse, procurei criar… Fui, desde então, um amante estudioso da história, do direito e da filosofia na mira de conseguir formular o modelo com que desejava viver. Confesso que não é fácil nem cómodo… Ainda no final da infância, dada a agitação política que então se viveu e vendo os mais ignominiosos acontecimentos que então se passaram, logo fiquei ciente que não só não era democrata como tive a certeza de que nunca o seria, pelo menos nos moldes que então e agora se entende a democracia. Sou um democrata muito especial, ou seja, apenas aceito uma democracia inter pares, o que se traduz, em bom rigor, por não ser democrata coisa nenhuma…
Aborrece-me a desonestidade, no seu sentido mais primário e que se perdeu que é não ter honra, honesto e honrado para mim são sinónimos absolutos e apenas a desonestidade generalizada corrompeu essa ligação secular. Ora, a democracia é a desonestidade instituída, aceitar e propagandear que somos todos iguais é uma alarvidade que ninguém no seu íntimo aceita, mas que brada ao vento por ser o política e socialmente correcto. A isso chamo hipocrisia, um contrário de honradez que, talvez por isso, nunca consegui aceitar, pelo que nunca consegui entender-me com os agentes políticos com quem me relacionei e, embora tenha ido a votos como candidato, nos meus primeiros tempos universitários e por duas vezes, sempre inter pares, nunca disse a ninguém, muito menos aos amigos, que votassem em mim… Sempre me ensinaram que a confiança não se pede, conquista-se ou não.
Ora, chegada altura em que se começava a desenhar o meu futuro, à boa maneira familiar, ninguém me perguntou nada, és homem, és o mais velho, vais para oficial do exército. E lá fui eu, acabadinho de desmamar, pegar na Maneliker até ter idade de pegar na Mauser… Por lá andei uns anos a verificar que se era dada, realmente, bastante importância à honra, havia também muita estupidez, outra das coisas com as quais, também, nunca fui capaz de lidar bem. Fiz de tudo um pouco até conseguir evitar aquele futuro militar, compreendera que não conseguiria aturar ordens idiotas proferidas por idiotas ainda mais idiotas do que as suas ordens, e voltei a ver-me na necessidade de olhar para o futuro… mais uma vez, era economista bancário ou advogado… Eu já era um pouco mais velho e mais resistente… após voltar à tropa como voluntário quase mais dois anos, onde pude constatar que estava certo e que não servia para aquilo, lá acabei por conseguir ir para filosofia… Afinal, professor também era aceitável… Pela minha parte gostava, iria ensinar filosofia, ter um horário decente e não de escravo e podia dedicar-me a pensar, a história, a filosofia e a política…
Como calcularão enganei-me redondamente… Após uns tempos em que a coisa correu bem, acabei por ver-me, agora, sem poder nem quererem que pense, que ensine e com um horário e condições que um escravo não invejaria… Continuo a pensar, mas mais para mim que para os outros e a olhar para este país e esta bandeira (que não era de croché), que aprendi a amar e a respeitar, com desdém e comiseração…
Não me alongarei sobre a questão da Monarquia e/ou República, porque creio já ter clarificado a minha forma de colocar a questão neste post.

2 comentários:

Jaime Dinis disse...

Quink,
Tenho o privilégio de não me ter inteirado de nada de novo.
Simplesmente li. Não ouvi.
Abraço,
JD
P.S.) Não consegues melhor sistema social do que a tua utópica (antiga e coerente) proposição?
Olha que, se calhar, sem termos total consciência, o futuro vai começar precisamente por ai: Na nova ordem social.
Hã, e para que não tenhas duvidas, não falo com Deus como o Bush, nem me converti em nenhuma religião ou outros sistemas pseudo – epistemológicos…

antónio pina disse...

Ei! Ei!

Nada de ruminar tristeza nostálgica.

Atendamos ao futuro
que apesar de inserto no tempo
será sempre de esperança primaveril

Bom texto.