"É MUITO DIFÍCIL QUE NÃO SENDO HONRADOS OS PRINCIPAIS CIDADÃOS DE UM ESTADO, OS OUTROS QUEIRAM SER HOMENS DE BEM; QUE AQUELES ENGANEM E ESTES SE CONFORMEM COM SER ENGANADOS." MONTESQUIEU, De l'Esprit des Lois,I:III,5
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quinta-feira, 6 de setembro de 2012
terça-feira, 13 de março de 2012
Já Começa a Meter Pena...
Álvaro excluído das reuniões com comissário europeu
Olli Rehn vem a Portugal. Reúne-se com parceiros sociais, com o governador do banco de Portugal, com deputados, com o Governo... só não se reúne mesmo com o ministro da Economia. Expresso
A minha questão é saber o que será possível esperar de um governo que trata assim um dos seus membros...
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sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012
Verdade Seja Dita...
Vítor Gaspar garante que não vai pedir mais dinheiro CM
E eu acredito, normalmente limita-se a tirar-nos em vez de pedir...
quinta-feira, 10 de março de 2011
quinta-feira, 30 de setembro de 2010
A Desnaturalização É Uma Boa Ideia e ainda Melhor Solução...
Pegando na ideia dos franceses, "Desnaturalização" aprovada para certos tipos de crimes em França JN, dei comigo a pensar que eles têm toda a razão e devíamos seguir o seu exemplo... Contudo, começava por desnaturalizar, com expropriação total dos bens até à quinta geração, dos políticos que arruinam ou lesaram gravemente o país, com opções corruptamente erradas bem como actos profundamente vergonhosos suficientemente provados, tais como pequenos-almoços com ex-jogadores de futebol pagos a peso de ouro por esta ou aquela instituição estatal, ainda que devidamente camuflada.
Os Mentirosos Compulsivos com actividade política seriam os primeiros, seguindo-se-lhes os jornalistas e pseudo-jornalistas neuróticos que os bajulam... Não temos que ser compatriotas de certos escroques. Apesar de tudo, não merecemos.
terça-feira, 30 de março de 2010
Falsificação de Divisas

Hoje o DN alerta-nos para um fenómeno muito preocupante que vem crescendo: Há cada vez mais notas falsas produzidas em casa. Contudo, não é só por aqui que se fica a contrafacção de divisas... Temos sabido que há inúmeros casos de recebimentos de caixas com a inscrição a afirmarem conter Robalos e, no entanto, quando se vai a abrir, verifica-se tratarem-se de tainhas. É, também, um fenómeno muito preocupante já que, a maior parte das vezes, a marosca só se descobre com a assinatura já entregue ou o telefonema já feito...
Para que não haja dúvidas deixamos fotos de exemplo: a primeira é de um robalo e a segunda de uma tainha. Não hesitem! Quando receberem caixas com peixes abram-nas de imediato. O perigo espreita o incauto!
segunda-feira, 18 de janeiro de 2010
Porquê que não usam as palavras correctas?
Onde se lê desviam não se deveria ter escrito roubaram? O quê que quer dizer desviar? Não é isso? Já agora, os partidos existem sozinhos ou são algumas das pessoas que os constituem que o desviam? Não deveriam ser expostas e chamadas à justiça, como fazem ao caixa ou ao manga de alpaca que desvia dez tostões? Ou será que quando são milhões e são os partidos (repare-se que não são as pessoas x, y e z dentro dos partidos) não há azar, isto é, assobia-se para o lado dizendo: é a política e o assunto fica arrumado?Será que já vem consagrado na nova Terminologia Linguística para os Ensinos Básico e Secundário (TLEBS) em que o ladrão rouba e os políticos desviam?
quarta-feira, 1 de julho de 2009
Pelo que se não for eleito....

Os Pato-Bravos já estão a ponderar um pedido de indeminização e, se a coisa correr de feição, o chamuças vai prometer para a semana, não um, mas três ou quatro...
Haja paciência... Viva Portugal!
sexta-feira, 6 de fevereiro de 2009
Toca a Abrir a Perninha...
"Tudo o que propusemos ao Governo no acordo de Junho ficou hoje acordado e regulamentado".Mais uma vez, o governo volta a mostrar que só conhece a lei da força... Seja quem for, tenha as razões que tiver, nada valem... Contudo, se tiverem camiões capazes de bloquear estradas, logo os nossos valentes e poderosos governantes se acobardam e abrem a perninha... Rico país, rico governo...
quinta-feira, 5 de fevereiro de 2009
PALAVRAS PARA QUÊ?
quinta-feira, 8 de janeiro de 2009
PARA LAMENTO...

Independentemente do resultado que pouco interessa, apenas me parece valer a pena estar atento ao que se vai passar na medida em que poderemos verificar a coerência dos nossos representantes. Isto é algo que os deputados tendem a esquecer, com o à vontade de quem nunca acreditou nisso e, como tal, nunca o levou a sério. Será, pois, interessante verificar se algo muda nesse grupo de representantes ou se continuarão a obedecer cegamente aos ditames dos seus interesses, ou seja, a reeleição. Será ainda curioso ver se Manuel Alegre e ala que não se revê em Sócrates se levanta à revelia da sua consciência, isto porque tenho a certeza que a maioria dos deputados do PS já percebeu que esta luta, cega, injusta e impopular, está perdida e vai-lhes retirar mais votos do que alguma vez poderiam supor e esses votos traduzem-se em cadeiras… Ora, além de votarem contra a sua consciência e contra a vontade de quem os mandatou, estarão a votar contra os seus próprios interesses…
Seria bom que pensassem nisso, apesar do perigo que representa, neste momento, cair na desgraça de Sócrates. Porém…
Outra coisa curiosa será ver Zita Seabra… Como vira-casacas que é, parece ter finalmente percebido onde anda agora o poder e, aí coerente com ela própria, parece andar a querer namorar Sócrates e o PS, claro que, na eventualidade do CDS vir alguma vez a ter poder, mudaria de novo…
Seria bom que pensassem nisso, apesar do perigo que representa, neste momento, cair na desgraça de Sócrates. Porém…
Outra coisa curiosa será ver Zita Seabra… Como vira-casacas que é, parece ter finalmente percebido onde anda agora o poder e, aí coerente com ela própria, parece andar a querer namorar Sócrates e o PS, claro que, na eventualidade do CDS vir alguma vez a ter poder, mudaria de novo…
domingo, 28 de dezembro de 2008
Entrevista a José Gil

28 Dezembro 2008 - 00h00
Entrevista - José Gil
“Há um combate entre o sorriso de José Sócrates e a crise mundial”José Gil, filósofo, acusa o primeiro-ministro de ter um projecto de carreira pessoal, autocrático, com um sorriso permanente. E o Governo de andar de fato cinzento.
Correio da Manhã/Rádio Clube – Sente-se bem no País em que vive?
José Gil – Razoavelmente. Não me sinto muito bem. A minha relação com Portugal é uma relação difícil e pode compreender-se porque eu sou um filho de um ex-colono, que viveu em Portugal, no fundo, dois anos. Aos dezassete, dezoito anos e depois voltei depois de praticamente trinta e cinco anos vividos, uma vida vivida em outro País.
EP – Em França.
- Em França.
EP – Um dos grandes sucessos, o livro que escreveu ‘Portugal, Hoje – O Medo de Existir’, foi publicado em 2004 e retracta a instabilidade, o desnorte, o medo de existir, sobretudo, e também uma análise à actualidade de então. O livro é publicado ainda com Santana Lopes no poder. Hoje escreveria o mesmo livro?
- Escreveria talvez, isto não tem muito sentido, noventa e tal cento do livro. Noventa e tal por cento escreveria da mesma maneira. Se bem que muitas coisas tenham mudado.
ARF – Para melhor ou para pior?
- Umas para melhor, outras para pior. E isto não é para fazer um equilíbrio. Não. Parece-se que são coisas diferentes. O que evoluiu para melhor é diferente daquilo que evoluiu para pior.
ARF – E o que é que evoluiu para melhor em Portugal nestes quatro anos?
- Olhe. Parece-me que há em Portugal cada vez mais uma aprendizagem por parte da comunidade portuguesa e da sociedade civil da democracia, da democracia dos direitos. E isso é bom, isso parece-me melhor. Depois há um desenvolvimento individual da criação cultural. E isso também me parece muito melhor. De certa maneira há, curiosamente é paradoxal o que vou dizer, curiosamente há uma espécie de liberdade maior mas que não vem do poder político, é uma liberdade maior que vem dos conflitos, dos embates sociais, do facto desses embates aparecerem mos meios mediáticos e serem consciente na parte da população. Também o facto de Portugal estar cada vez mais consciente do que se passa, como se dizia antigamente, lá fora. Quer dizer, Portugal está cada vez mais lá fora, o que dá uma reacção cada vez mais dentro. E isto é devido certamente a reacções sociais, das pessoas.
EP – Mas é a mentalidade dos portugueses que está a mudar ou são os mais novos que nasceram já depois do 25 de Abril, da Revolução de 74, que já têm outra forma de pensar ou não?
- Não. Teriam outra forma de pensar, mas não têm. E não têm, primeiro, porque herdam uma velha forma dos pais. E naquilo que mudam na sua vida de adolescente, de jovem da universidade ou do trabalho, pura e simplesmente, eles vão encontrar umas estruturas, vão encontrar quadros de vida, escritórios, aonde encontram, aonde vão novamente ter de se moldar aos velhos comportamentos, às velhas mentalidades.
EP – Salazar ainda está na fonte.
- Ai, eu acho que sim.
EP – Mesmo nos mais novos?
- Absolutamente. Mesmo que seja subliminarmente ou inconscientemente ele está. É claro. Para mim é claro.
ARF – Ainda somos um País salazarento?
- Ai somos. Somos um País salazarento em certas coisas. Não é um País salazarento.
ARF – Claro. Mas o que domina, o que importa, o que fixa, como disse a propósito dos jovens, ainda é um certo ambiente cultural que os domina, que os leva a pensar assim e também a comportarem-se de uma forma pequenina, como refere. Os portugueses gostam de ser pequeninos?
- Os portugueses gostam de ser pequeninos. Sabe, muitas vezes eu comparo as reacções às reacções dos habitantes das ilhas. Eu conheci uma ilha, conheci muito bem uma ilha onde vivi, que foi a Córsega, e fiquei de tal maneira marcado por aquelas mentalidades que quando vim para Portugal eu era capaz de reconhecer, ao fim de dez minutos de conversa, que aquela pessoa vinha dos Açores. Sem saber mais nada, outro indício. Quer dizer, há qualquer coisa de muito específico no habitante da ilha. É que a ilha é como um corpo de onde se sai e para onde se volta quase necessariamente. É muito difícil as pessoas desligarem-se da ilha.
EP – Nós somos um povo ainda fechado?
- Nós somos um povo ainda muito fechado que se está agora, agora, agora, quando eu digo agora são meses a abrir-se assim.
EP- E quantas gerações são precisas para nos abrirmos?
- Não sei. Não sei. Se há coisa mais difícil de mudar é o que se chama mentalidades, não é?
ARF – Mas há aqui um paradoxo. Temos muito o espírito da ilha, mas fomos um Império. Andámos por todo o mundo, conhecemos o mundo há muitos séculos. Porque temos sempre esse espírito da ilha?
- Nós não temos sempre. Primeiro, lembre-se que o nosso Império é um Império desmedido para a nossa capacidade e para a nossa economia. Em segundo lugar, só para lhe lembrar assim frases, lembre-se que o Salazar chamava ao nosso Império a nossa quinta. Isto é típico. Quer dizer que o Império não constituía um horizonte. Quer dizer, digamos, uma palavra de que eu gosto muito, não era um fora. O fora é um desconhecido. Não. Eu não estou a brincar, nem estou a forjar o que quer que seja. Lembro-me que quando vim de Lourenço Marques para cursar a universidade cá havia pessoas que me perguntavam: “Há leões em Lourenço Marques? Passeiam-se na rua?” Está a ver o desconhecimento total.
ARF – Referiu que um dos aspectos positivos em Portugal nestes últimos anos era as pessoas conhecerem melhor a democracia e estarem a viver melhor a democracia. Mas isto está a incomodar o poder político?
- Claro que está.
ARF – A incomodar muito?
- Esse é o aspecto, se falarmos unicamente no plano político. Portugal não é o plano político. Não é. Felizmente é muito mais do que isso. Não vale a pena bater no ceguinho, toda a gente fala nisso, eu também. Há realmente uma nova tendência para o autoritarismo, para uma nova forma de autoritarismo.
EP – Arrogância?
- Arrogância, autoritarismo. Quer dizer, desprezo da democracia em nome da vontade autocrática de um governante ou dois.
ARF – É o que se passa no caso dos professores? Nomeadamente neste momento em que os professores estão na rua, manifestações imensas. Refere-se muito à não-inscrição. A não-inscrição neste caso é o Governo ignorar isso tudo?
- Totalmente. É um exemplo típico de não-inscrição. Totalmente. Não só não-inscrição. Há pior do que isso. Eu ouvi o secretário de Estado, como milhões de pessoas ouviram na televisão, o secretário de Estado Pedreira dizer, depois das assinaturas, isto foi há três dias.
ARF – O abaixo-assinado.
- O abaixo-assinado apresentado no Ministério da Educação. Dizendo, mas isso podia ser forjado. Quer dizer. Eu fiquei com vergonha.
ARF – Porque não era preciso apresentar a escola.
- Não era preciso apresentar. Poder-se-ia forjar.
ARF – As assinaturas.
- Quer dizer. Não são as 60 mil assinaturas. É o facto de forjar. Percebe?
ARF – Claro.
- Quando isto vem à cabeça de alguém isto revela a cabeça de alguém.
ARF – Exacto. Mas isso incomoda muito. Estas manifestações sociais, de protesto, de viver a democracia, que nós estamos a aprender lá fora, a perceber, a abrir?
- Deve incomodar. Deve ter incomodado um projecto pessoal que nós não conhecemos nem nunca conheceremos.
EP – De José Sócrates?
- De José Sócrates. Mas que temos indícios. Um projecto de carreira pessoal. Isto é tudo muito pequenino, não estamos a falar de grandes cultos de personalidade nem de grandes regimes autoritários, nem nada. Seria á nossa medida mas seria qualquer coisa de novo. E repare como realmente há condições para um novo tipo de obediência ao poder.
ARF – Neste momento reforçado com esta sensação de pânico e de crise que as pessoas estão a viver em que aparece o primeiro-ministro a dizer que vai salvar todos, não é?
- Absolutamente. E repare como é o único. Quando eu falo de autocratismo ou autocracia estou bem consciente que não estou só a falar do Governo, estou a falar sobretudo de uma pessoa. Isto pode parecer anódino, não significativo. Nós temos um Governo, mas um Governo cinzento, morno. Quem é que sobressai ali? Nada.
ARF – Podemos falar de vários nomes.
- Nada. De vários nomes e nada.
EP – Sobressaiam talvez pela parte menos boa.
- Menos boa, não sorriem, não estão contentes com a vida, parecem mais ou menos autómatos. Há ali pessoas muito inteligentes, não se vê nada, tudo aquilo é fato cinzento. E no meio, ou por cima ou ao lado há uma pessoa que tem um sorriso sempre até às orelhas, um dos sorrisos extraordinários que não pára, pára de vez em quando, e como se a vida fosse o triunfo quotidiano do progresso e essa pessoa é o primeiro-ministro. Não é esquisito isto? Aquele sorriso não deveria contagiar os mais próximos? O sorriso e os afectos é o que contagia imediatamente. E não contagia.
EP - Quais são os melhores governantes?
- Não vou nomear.
EP – Há pastas mais sensíveis do que outras. A pasta da Educação é sempre sensível, a pasta da Justiça e da Administração Interna.
- Não lhe sei dizer. Não sei comparar.
EP – Mas a avaliação que acaba de fazer, do cinzentismo. É um cinzentismo geral?
- É um cinzentismo que se estende em geral. Quem é ali a pessoa? Havia ali um ministro, que era o António Costa, que tinha a sua autonomia. Bem, a começar pelo ministro do Trabalho, que é uma tumba, a acabar na ministra da Educação, cuja espontaneidade expressiva...é isso. Falta espontaneidade expressiva aos ministros. São muito simpáticos, podem ser muito simpáticos pessoalmente.
ARF – E até inteligentes.
- Claro. Mas não é isso. Há qualquer coisa que faz com que eles não se manifestem em sorrisos nem sejam espontâneos. Ora isso é o sinal de que eles não pretendem sequer seduzir as pessoas.
EP – E isso passa para os portugueses? Esse cinzentismo passa?
- Passa com certeza.
EP – E pode ser o ponto fraco do Governo?
- Não, há outros. Ponto fraco do Governo é o facto de não ter ideias. Esse é o ponto fraco do Governo. Mas que passa, passa. Repare que há aqui um paradoxo muito grande aparente. O facto de haver manifestações e manifestações não só na Educação mas também em outros campos do trabalho, como os funcionários públicos e as sondagens darem sempre uma vantagem muito grande a José Sócrates. As pessoas estão perdidas, as pessoas e o português por excelência é um ser que está sempre a hesitar. O desassossego do Pessoa é também uma passagem contínua de um sítio para o outro, de um sítio para o outro. Estão sempre a hesitar. E quando aparece alguém que se mostra determinado, forte, etc, a pessoa fica fascinada. Aconteceu com Álvaro Cunhal, aconteceu com Cavaco Silva. Quando aparece assim uma pessoa que sabe o que quer. Pode saber muito pouco, pode ser estreitíssimo, mas sabe o que quer e é dirigente e tem a aura de ser dirigente.
ARF – E os portugueses ficam deslumbrados com esse cidadão?
- Absolutamente. Ora a identificação que os portugueses fazem com o Sócrates, para as sondagens darem os resultados que dão, vem de uma identificação pessoal. Não vem de uma identificação com a política geral do Governo. Porque logo ao lado as sondagens sobre a política do Governo não correspondem a essa sondagem sobre Sócrates.
ARF – Exactamente. É diferente.
- É portanto qualquer coisa de pessoal. É uma relação pessoal. Enfim, ali temos uma referência. Agora, nós que não temos referência de nada, sobretudo do futuro que aí vem, há ali uma pessoa que não só sabe ou parece saber o que quer como está contente. Ainda para mais está satisfeito previamente com o futuro que vai vir. Seguimos uma pessoa assim.
ARF – Somos um bocado fatalistas nisso. É o Salazar, o Cavaco, o Cunhal, agora é o Sócrates e agora não há na oposição ninguém com esse espírito. Uma pessoa que nos inspire essa admiração. O homem ou a mulher estão contentes nós vamos segui-lo de forma acrítica, um bocado como a carneirada, não é?
- É mas também é outra coisa, sabe? Não é só carneirada no sentido pejorativo. É também necessidade de um líder e um líder é um chefe político que tem propriedades muito importantes como o de condensar, atrair uma série de forças e poder utilizá-las para o bem da comunidade. E pode deixar de ser líder, como em certas sociedades, meses depois. Mas durante aqueles meses em que foi líder é uma personagem venerada e que é necessária para a comunidade.
EP – Não se percebe muito bem. Cá está, é a mentalidade dos portugueses ou talvez por não haver uma oposição forte. Se por um lado se manifestam nas ruas contra as políticas do Governo, não só na Educação, por outro quando há uma sondagem o primeiro-ministro continua a subir. O que é que se passa na cabeça dos portugueses?
- É isso que eu quis explicar, enfim, na medida em que isso é possível. As pessoas identificam-se enquanto egos. Quer dizer, eu na minha pessoa sou uma pessoa insegura, incerta, cheia de hesitações, não sei o que fazer e tenho ali, eu, no fundo, identifico-me pessoalmente com o Sócrates.
EP – Nisso José Sócrates é bom?
- Muito bom. Perfeito, como sabe. Não é que seja um grande sedutor, é um bom orador, energeticamente contagiante, ora os portugueses estão ávidos de carisma. Não é que ele tenha carisma, mas o carisma é-lhe atribuído. E portanto recebe-se o carisma por refluxo. É aquilo que se dá e o que se recebe.
ARF – Isso não é também pelo facto de os portugueses terem medo de existir? É verdade isto? Precisam de alguém que tome conta deles, que os proteja, que lhes indique o Governo?
- Eu acho que é verdade e tem raízes históricas muito grandes e que foi sedimentado fortemente durante o salazarismo e que tem a ver com qualquer coisa que existe na sociedade portuguesa. Que é o facto de o português não atingir a maturidade.
EP – Precisa sempre do outro?
- Precisa sempre do outro, há qualquer coisa de adolescente no adulto, na sua estabilidade emocional, emotiva, no seu poder de iniciativa, no seu poder de risco em relação a si próprio.
EP – Podemos dizer que esta não é só uma crise económica?
- Está a falar de Portugal?
EP – Sim.
- Mas qual crise. É que agora nós temos duas, três. Antes da crise mundial já havia uma crise em Portugal. Agora já não há porquê?
ARF – Agora são muitas crises.
- É, não é?
ARF – E esta está a assustar muito mais as pessoas.
- Claro, porque já estavam assustadas e esta não depende de nós. Vamos ver, Agora há um embate, uma espécie de combate entre o sorriso do Sócrates e a crise mundial.
ARF – Agora vamos ver como se resolve.
- Bem, estamos a ver já as primeiras transformações. É que o sorriso já esmoreceu de há uns dias para cá.
EP – E no próprio Governo, não é?
- O Governo nunca teve sorrisos, excepto o ministro Lino, que ri de vez em quando fazendo gafes.
ARF – Voltando à Educação. Sempre tivemos um grande défice na Educação. Os alunos são mal preparados no liceu, chegam à universidade mal preparados e chegam à vida real mal preparados. Este processo nunca foi resolvido nestes anos de democracia. E cada vez está pior, não está? De preparar as pessoas para terem um olhar lá para fora? Como professor universitário não acha isso?
- Eu não posso falar ainda porque está a ser desenvolvido, está a começar a reforma universitária, mas no que diz respeito à reforma do ensino secundário eu acho, hoje acho que é um desastre. Lamento profundamente, tenho uma amargura profunda. Olhe, eu aí tenho uma amargura pelo meu País. Realmente. Realmente eu esperava qualquer coisa, e espero ainda não sei como. Porque é isso que vai mudar o País. Nós vimos de muito longe, de muito longe de analfabetismo, de iletracia, de pobreza. Somos um País secularmente pobre em tudo. Mentalmente e materialmente pobre. E era uma maneira agora de se transformar tudo.
ARF – Foi uma oportunidade perdida?
- Estou convencido que as reformas que estão a ser realizadas não vão transformar o nosso País.
ARF – É muitas vezes acusado de ser um pessimista por aqueles que não gostam de ouvir algumas verdades. É pessimista, optimista, isso pode-se classificar assim o que diz e analisa sobre a sociedade portuguesa?
- Eu já me expliquei várias vezes sobre isso. Eu acho que pessimismo, optimismo são atitudes que se têm em relação a uma linha histórica qualquer. Se se está convencido que essa linha vai para pior é-se pessimista. Se não é-se optimista. Mas são atitudes. Saber se intrinsecamente se é optimista ou pessimista, eu estou convencido que é muito difícil encontrar verdadeiros pessimistas. Porque aqueles que são pessimistas e que segregam, nos seus livros, nos seus artigos o pessimismo no fundo estão a alimentar o seu optimismo visceral, vital, que é de viver, é de gostar de viver com essa actividade de ser pessimista. Mais nada.
EP – Há pouco falava nos 40 anos que esteve fora de Portugal, nos anos que viveu em França, País em que se licenciou e doutorou. Chegou a Portugal em 1976 e fez parte do Governo provisório. Como é que foi recebido quando cá chegou pela comunidade filosófica?
- Não havia.
EP – E por outros sectores académicos?
- No fundo não havia comunidade filosófica. Tenho unicamente a lembrança de ter sido muito bem recebido pelo Fernando Belo, o professor Fernando Belo, que está jubilado agora. E mais ninguém, mais ninguém. Aliás, eu não estava ligado, nem em contacto com a comunidade filosófica. Eu era assessor do secretário de Estado.
ARF – Em 1976. Veio e foi-se embora outra vez.
- Foi.
ARF – As comunidades reagem mal às pessoas que fazem a vida lá fora, reagem mal aos estrangeirados? Faz parte também da forma como encaramos o mundo, o lá fora? É inveja do sucesso?
- Quando a pessoa vai lá para fora e vence. Porque há muitos portugueses e houve muitos portugueses que foram lá para fora e não venceram. Até acabaram muito mal. E eu conheci, até pessoas com talento. O exílio, quer seja forçado ou voluntário, é muito difícil, é muito duro. Muito duro. E há os que viviam, por exemplo, em Paris e constantemente existiam na Avenida da Liberdade em Lisboa. O que lhes interessava. Quer dizer, nunca foram contaminados, nunca tiveram um embate com uma sociedade extremamente dura, se bem que fossem bons tempos, os tempos do gaulismo. Dura porque era uma sociedade fechada também para os estrangeiros, era muito difícil entrar em famílias francesas, conhecer o modo de vida francês, por dentro. Mas como é uma sociedade, uma cidade extraordinária, Paris, havia sempre um cosmopolitismo, para empregar esta palavra, que era absolutamente extraordinário. Agora, isso para dizer o seguinte. As pessoas tinham inveja dos que iam lá para fora. Nós deixámos de ter aquilo que em psicanálise se chama os benefícios secundários da neurose. Quer dizer que não temos a almofadinha da mamã, estamos mal com a noiva ou estamos mal com a namorada corremos logo para a almofadinha da manhã. É um exemplo caricato mas é isso. Que nós tínhamos aqui, que eu tinha aqui. E quando se vai lá para fora deixa-se de ter.
EP – Ainda hoje é assim.
- Ainda hoje é assim. Ainda há os benefícios secundários. É pena.
EP – Eu estou a perguntar se ainda hoje é assim.
- Não. Já é diferente. Primeiro, a comunidade portuguesa agora é muito diferente porque é uma comunidade de segunda geração, terceira geração.
EP – Foi considerado um dos 25 grandes pensadores de todo o mundo por uma conceituada revista francesa. Como é que reagiu a isto e sendo em França?
- Já não reajo, isso é uma coisa. Há 25, há tantos, tantos que não estão lá, portanto não vale a pena falar disso. Há tantos, tantos.
EP – Vale a pena porque é um pensador português e foi a França, o País onde estudou e viveu que lhe dá este mérito.
- Sim. E então? O que é que quer saber? Se eu gostei?
EP – Se gostou.
ARF – Teve alguma reacção negativa em Portugal? Esse facto levou as pessoas a encarar o professor José Gil de uma forma invejosa?
- Ah sim. Até houve um episódio que não foi muito agradável com um grande amigo, que não vale a pena estar a evocar. Houve um episódio desse tipo porque, enfim, sempre histórias de inveja.
ARF – Inveja, sempre.
- Sim, são histórias de inveja.
ARF – Há bocado estávamos a falar da crise e perguntou qual delas, porque há várias crises. Mas esta crise económica e financeira mundial que nos está a atingir em força, apesar do sorriso do primeiro-ministro, não é uma oportunidade para nós alterarmos a nossa forma de estar no mundo e estar na vida?
- Claro, teoricamente pode ser, mas acha que vai ser? Nós vamos ser obrigados a viver de outra maneira. Comos e sabe, ninguém sabe nada da crise. Mas suponhamos que realmente a crise vai durar dez anos, ou vai durar quinze anos. Quinze anos é muito tempo e nós vamos ter de mudar, vamos ter de mudar de maneira de viver, a nossa comunidade vai modificar-se, a relação ricos/pobres vai modificar-se em Portugal. Em quinze anos de crise vai haver muita coisa que se passará, muita água que passará debaixo das pontes com certeza. E nós vamos ter de nos adaptar. Agora, o que é que significa crise durante quinze anos? Se vai haver muita coisa que vai acontecer. A minha ideia, a ideia de toda a gente quando diz uma crise durante quinze anos é que vai ser cada vez pior, lentamente, no sentido de que nós vamos perdendo os pequeninos privilégios, a pobreza vai aumentar, vai atingir cada vez mais classes médias.
EP – Mas ai pode vir outra carga de pessimismo.
- Pode vir até muita outra coisa, sabe.
EP – Ou seja, os portugueses têm motivos para serem pessimistas?
- Têm. Mas que portugueses? Sabe que venda de carros de alta gama aumentou.
ARF – O fosso entre ricos e pobres aumentou imenso.
- E pior. Quer dizer, melhor. Aumentou e esse fosso que era encoberto, que se escondia, por várias razões, até porque os pobres escondiam, esse fosso vai aparecer à tona. E quando aparecer à tona vai ser uma das realidades quotidianas da nossa vida. E isso vai modificar muito a nossa maneira de percepcionar o outro, o outro português e de nos percepcionarmos nós mesmos enquanto colectividade. Não sabemos o que vai acontecer.
ARF – Essa realidade vai aumentar os laços de solidariedade entre os portugueses? Perceber o outro de forma diferente?
- É possível. A sociedade portuguesa guarda um capital muito forte ainda do que se perdeu muito nas sociedades hiperdesenvolvidas ou as sociedades europeias. Que é o capital afectivo. Pode parecer, e é verdade que houve uma diminuição dessa afectividade social. Mas quando um estrangeiro vem a Portugal e vê os portugueses e vê como é recebido, tratado, falado reconhece, percebe isso, percebe que há ali qualquer coisa que já não tem no seu País. E isso chamo uma afectividade colectiva que existe cada vez menos, como sabe nas grandes cidades portuguesas. Mas que Portugal tem ainda.
ARF – É um capital.
- É um capital que está a ser desbaratado e está a ser desbaratado entre outras coisas porque nas grandes reformas com um modelo de gestão e da modernização não há lugar para esse capital afectivo.
ARF – Refere-se a que reformas?
- Reformas da modernização, que não são só portuguesas, de toda a sociedade europeia. Mas em Portugal, que quer ser realizada e posta em prática por estes governantes de hoje.
EP – Que países é que podíamos ter como referência?
- Como referência? Não sei. Eu não sei que referência. Mas se está a falar ainda em capital afectivo possivelmente a Irlanda, onde isso existe.
ARF – E isso tem reflexo na vida do País e do seu desenvolvimento.
- Com certeza.
ARF – O professor diz que Portugal não tem um projecto de futuro. É verdade isto?
- Isso é evidente. É isso mesmo que não existe numa política. Veja. A política da modernização é uma política que está a crer no fundo alargar um certo espaço presente em que as relações de gestão, as relações entre as pessoas dentro de uma empresa, de uma instituição são determinadas por avaliações, por simplificações de actividades, pela produtividade, pela deslocalização do trabalho. Nisso não se toma em consideração absolutamente a questão afectiva. Isto poderá fazer rir. Mas que faça rir é que é pena. Mas quando se fala, por exemplo, em alargar o período em que a mulher pode ficar em casa depois da maternidade nós estamos a falar de uma afectividade que é tomada em conta pelo Estado. E isso é muito importante.
ARF – E o marido poder ficar em casa também.
- Isso. E ter em conta a afectividade, tão premente nos portugueses hoje, ainda, é fazer com que precisamente se corrijam todas as desumanizações que implicam critérios, como os critérios de avaliação.
ARF – Como estamos a ver nos professores.
- Claro.
ARF – E agora vai chegar também aos professores universitários.
- Vai ser isso.
EP – A propósito da afectividade. Na mensagem de Natal do primeiro-ministro, além de se falar no ano difícil, Sócrates agradeceu os sacrifícios feitos. Há uma tentativa de criar laços afectivos com os portugueses?
- Possivelmente. Mas eles não sabem é o que é a afectividade. O discurso do primeiro-ministro é um discurso absolutamente frio. Aquilo é retórico. Mesmo que ele sinta. Ele não está com as pessoas. Estar com as pessoas é precisamente o contrário, é ter uma palavra, saber que aquilo é uma pessoa, antes de ser um elemento ou agente político ou eleitoral. É uma pessoa. Claro. Agora há a política. Como é que eu vou fazer entrar a pessoa dentro da política, tudo isto são problemas que ele não põe.
ARF – Como é que este povo e estas pessoas votam normalmente à esquerda? O que é que a esquerda significa para as pessoas? Ou não entendem o que é esquerda e direita?
- Eu acho que isto tem a ver com 25 de Abril ainda. Não por ser o 25 de Abril. Mas tem a ver no fundo com o facto de o 25 de Abril ter modificado completamente uma desastrosa história da nossa sociedade. Há sítios no Marão em que se divide o tempo cronológico entre no tempo em que eu não comia bifes e depois do 25 de Abril é o tempo em que eu passei a comer bifes. Bom. E quem trouxe os bifes? Foi a esquerda. Mas não foi só os bifes. Os portugueses gostam da liberdade. E vê-se, viu-se logo quando puderam votar. As pessoas não são parvas.
EP – Mas como é que essa esquerda, a do 25 de Abril e a da agora, está?
- Pois. A esquerda está pelas ruas da amargura. Quase. Quase. Só não está porque a direita ainda está pior. O melhor aliado da esquerda é a direita.
EP – A direita precisa dessa figura de líder?
- Absolutamente. Precisa de uma figura de líder. Não creio que a doutora Manuela Ferreira Leite seja uma líder. Poderá ser tudo, do ponto de vista da competência, mas não tem qualidades de líder e qualidades políticas. E vamos assistir ou à sua substituição ou a mais um triunfo por negação de José Sócrates.
ARF – Agora a União Europeia, em que Portugal está desde 1986. A UE vai no bom caminho ou está a cometer erros históricos que podem ser graves no futuro próximo?
- Tem cometido muitos, como sabe. Tem cometido muitos. Agora, resta saber o que se quer da Europa. E voltamos sempre à mesma questão.
ARF – É federalista?
- Eu sou, sim, sou. E até por um federalismo tal que pudesse fazer coexistir uma Europa sem fronteiras geopolíticas com uma Europa que possa ter o peso económico que sustenha toda uma cultura da Europa que se está a perder. Quero eu dizer. A Europa é um território, se quiser, que fez a história, que fez a inteligência do homem. É um território e é mais do que um Estado, uma superpotência. É muito mais do que isso. Há qualquer coisa na Europa que faz dela uma fonte permanente de invenção. E agora estamos a ser invadidos pela cultura de massa americana. E isso é um drama para nós todos.
EP – É uma não-afirmação?
- É uma não-afirmação da Europa. Absolutamente. O drama, o dilema é que para que haja afirmação da Europa é preciso que ela se torne numa superpotência militar, económica. E isso é capaz de acabar com a Europa e fazer da Europa um Estado Nação banal, federal. Temos de inventar uma nova Europa.
ARF – Esta Europa que conhecemos é uma Europa fortaleza. Tem medo dos imigrantes. Também tem medo do fora, de tudo o que vem de fora.
- Claro. Tem medo. Nós vivemos numa espécie de equívoco quase realizado. Por exemplo. A questão da Turquia. Do ponto de vista dos princípios nós temos de admitir que a Turquia entre para a União Europeia. Do ponto de vista prático nós não podemos deixar entrar para a Europa um País que não segue as regras democráticas. E que por outro lado pode ser realmente uma via de entrada do fundamentalismo.
PERFIL
José Gil, autor de várias obras sobre Filosofia, Artes, Dança e Literatura, nasceu em 1939 em Muecate, Moçambique. Aos 18 anos foi para França onde se licenciou em Filosofia na Faculdade de Letras da Sorbone, em Paris, em 1968. Anos mais tarde doutorou-se em Filosofia na Universidade Paris VIII. Em 1976 regressou a Portugal e foi assessor do secretário de Estado do Ensino Superior do IV Governo Provisório. Em 1981 entrou na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa como professor convidado, onde hoje é professor catedrático.
António Ribeiro Ferreira (Correio da Manhã), Elisabete Pato (Rádio Clube)
Entrevista - José Gil
“Há um combate entre o sorriso de José Sócrates e a crise mundial”José Gil, filósofo, acusa o primeiro-ministro de ter um projecto de carreira pessoal, autocrático, com um sorriso permanente. E o Governo de andar de fato cinzento.
Correio da Manhã/Rádio Clube – Sente-se bem no País em que vive?
José Gil – Razoavelmente. Não me sinto muito bem. A minha relação com Portugal é uma relação difícil e pode compreender-se porque eu sou um filho de um ex-colono, que viveu em Portugal, no fundo, dois anos. Aos dezassete, dezoito anos e depois voltei depois de praticamente trinta e cinco anos vividos, uma vida vivida em outro País.
EP – Em França.
- Em França.
EP – Um dos grandes sucessos, o livro que escreveu ‘Portugal, Hoje – O Medo de Existir’, foi publicado em 2004 e retracta a instabilidade, o desnorte, o medo de existir, sobretudo, e também uma análise à actualidade de então. O livro é publicado ainda com Santana Lopes no poder. Hoje escreveria o mesmo livro?
- Escreveria talvez, isto não tem muito sentido, noventa e tal cento do livro. Noventa e tal por cento escreveria da mesma maneira. Se bem que muitas coisas tenham mudado.
ARF – Para melhor ou para pior?
- Umas para melhor, outras para pior. E isto não é para fazer um equilíbrio. Não. Parece-se que são coisas diferentes. O que evoluiu para melhor é diferente daquilo que evoluiu para pior.
ARF – E o que é que evoluiu para melhor em Portugal nestes quatro anos?
- Olhe. Parece-me que há em Portugal cada vez mais uma aprendizagem por parte da comunidade portuguesa e da sociedade civil da democracia, da democracia dos direitos. E isso é bom, isso parece-me melhor. Depois há um desenvolvimento individual da criação cultural. E isso também me parece muito melhor. De certa maneira há, curiosamente é paradoxal o que vou dizer, curiosamente há uma espécie de liberdade maior mas que não vem do poder político, é uma liberdade maior que vem dos conflitos, dos embates sociais, do facto desses embates aparecerem mos meios mediáticos e serem consciente na parte da população. Também o facto de Portugal estar cada vez mais consciente do que se passa, como se dizia antigamente, lá fora. Quer dizer, Portugal está cada vez mais lá fora, o que dá uma reacção cada vez mais dentro. E isto é devido certamente a reacções sociais, das pessoas.
EP – Mas é a mentalidade dos portugueses que está a mudar ou são os mais novos que nasceram já depois do 25 de Abril, da Revolução de 74, que já têm outra forma de pensar ou não?
- Não. Teriam outra forma de pensar, mas não têm. E não têm, primeiro, porque herdam uma velha forma dos pais. E naquilo que mudam na sua vida de adolescente, de jovem da universidade ou do trabalho, pura e simplesmente, eles vão encontrar umas estruturas, vão encontrar quadros de vida, escritórios, aonde encontram, aonde vão novamente ter de se moldar aos velhos comportamentos, às velhas mentalidades.
EP – Salazar ainda está na fonte.
- Ai, eu acho que sim.
EP – Mesmo nos mais novos?
- Absolutamente. Mesmo que seja subliminarmente ou inconscientemente ele está. É claro. Para mim é claro.
ARF – Ainda somos um País salazarento?
- Ai somos. Somos um País salazarento em certas coisas. Não é um País salazarento.
ARF – Claro. Mas o que domina, o que importa, o que fixa, como disse a propósito dos jovens, ainda é um certo ambiente cultural que os domina, que os leva a pensar assim e também a comportarem-se de uma forma pequenina, como refere. Os portugueses gostam de ser pequeninos?
- Os portugueses gostam de ser pequeninos. Sabe, muitas vezes eu comparo as reacções às reacções dos habitantes das ilhas. Eu conheci uma ilha, conheci muito bem uma ilha onde vivi, que foi a Córsega, e fiquei de tal maneira marcado por aquelas mentalidades que quando vim para Portugal eu era capaz de reconhecer, ao fim de dez minutos de conversa, que aquela pessoa vinha dos Açores. Sem saber mais nada, outro indício. Quer dizer, há qualquer coisa de muito específico no habitante da ilha. É que a ilha é como um corpo de onde se sai e para onde se volta quase necessariamente. É muito difícil as pessoas desligarem-se da ilha.
EP – Nós somos um povo ainda fechado?
- Nós somos um povo ainda muito fechado que se está agora, agora, agora, quando eu digo agora são meses a abrir-se assim.
EP- E quantas gerações são precisas para nos abrirmos?
- Não sei. Não sei. Se há coisa mais difícil de mudar é o que se chama mentalidades, não é?
ARF – Mas há aqui um paradoxo. Temos muito o espírito da ilha, mas fomos um Império. Andámos por todo o mundo, conhecemos o mundo há muitos séculos. Porque temos sempre esse espírito da ilha?
- Nós não temos sempre. Primeiro, lembre-se que o nosso Império é um Império desmedido para a nossa capacidade e para a nossa economia. Em segundo lugar, só para lhe lembrar assim frases, lembre-se que o Salazar chamava ao nosso Império a nossa quinta. Isto é típico. Quer dizer que o Império não constituía um horizonte. Quer dizer, digamos, uma palavra de que eu gosto muito, não era um fora. O fora é um desconhecido. Não. Eu não estou a brincar, nem estou a forjar o que quer que seja. Lembro-me que quando vim de Lourenço Marques para cursar a universidade cá havia pessoas que me perguntavam: “Há leões em Lourenço Marques? Passeiam-se na rua?” Está a ver o desconhecimento total.
ARF – Referiu que um dos aspectos positivos em Portugal nestes últimos anos era as pessoas conhecerem melhor a democracia e estarem a viver melhor a democracia. Mas isto está a incomodar o poder político?
- Claro que está.
ARF – A incomodar muito?
- Esse é o aspecto, se falarmos unicamente no plano político. Portugal não é o plano político. Não é. Felizmente é muito mais do que isso. Não vale a pena bater no ceguinho, toda a gente fala nisso, eu também. Há realmente uma nova tendência para o autoritarismo, para uma nova forma de autoritarismo.
EP – Arrogância?
- Arrogância, autoritarismo. Quer dizer, desprezo da democracia em nome da vontade autocrática de um governante ou dois.
ARF – É o que se passa no caso dos professores? Nomeadamente neste momento em que os professores estão na rua, manifestações imensas. Refere-se muito à não-inscrição. A não-inscrição neste caso é o Governo ignorar isso tudo?
- Totalmente. É um exemplo típico de não-inscrição. Totalmente. Não só não-inscrição. Há pior do que isso. Eu ouvi o secretário de Estado, como milhões de pessoas ouviram na televisão, o secretário de Estado Pedreira dizer, depois das assinaturas, isto foi há três dias.
ARF – O abaixo-assinado.
- O abaixo-assinado apresentado no Ministério da Educação. Dizendo, mas isso podia ser forjado. Quer dizer. Eu fiquei com vergonha.
ARF – Porque não era preciso apresentar a escola.
- Não era preciso apresentar. Poder-se-ia forjar.
ARF – As assinaturas.
- Quer dizer. Não são as 60 mil assinaturas. É o facto de forjar. Percebe?
ARF – Claro.
- Quando isto vem à cabeça de alguém isto revela a cabeça de alguém.
ARF – Exacto. Mas isso incomoda muito. Estas manifestações sociais, de protesto, de viver a democracia, que nós estamos a aprender lá fora, a perceber, a abrir?
- Deve incomodar. Deve ter incomodado um projecto pessoal que nós não conhecemos nem nunca conheceremos.
EP – De José Sócrates?
- De José Sócrates. Mas que temos indícios. Um projecto de carreira pessoal. Isto é tudo muito pequenino, não estamos a falar de grandes cultos de personalidade nem de grandes regimes autoritários, nem nada. Seria á nossa medida mas seria qualquer coisa de novo. E repare como realmente há condições para um novo tipo de obediência ao poder.
ARF – Neste momento reforçado com esta sensação de pânico e de crise que as pessoas estão a viver em que aparece o primeiro-ministro a dizer que vai salvar todos, não é?
- Absolutamente. E repare como é o único. Quando eu falo de autocratismo ou autocracia estou bem consciente que não estou só a falar do Governo, estou a falar sobretudo de uma pessoa. Isto pode parecer anódino, não significativo. Nós temos um Governo, mas um Governo cinzento, morno. Quem é que sobressai ali? Nada.
ARF – Podemos falar de vários nomes.
- Nada. De vários nomes e nada.
EP – Sobressaiam talvez pela parte menos boa.
- Menos boa, não sorriem, não estão contentes com a vida, parecem mais ou menos autómatos. Há ali pessoas muito inteligentes, não se vê nada, tudo aquilo é fato cinzento. E no meio, ou por cima ou ao lado há uma pessoa que tem um sorriso sempre até às orelhas, um dos sorrisos extraordinários que não pára, pára de vez em quando, e como se a vida fosse o triunfo quotidiano do progresso e essa pessoa é o primeiro-ministro. Não é esquisito isto? Aquele sorriso não deveria contagiar os mais próximos? O sorriso e os afectos é o que contagia imediatamente. E não contagia.
EP - Quais são os melhores governantes?
- Não vou nomear.
EP – Há pastas mais sensíveis do que outras. A pasta da Educação é sempre sensível, a pasta da Justiça e da Administração Interna.
- Não lhe sei dizer. Não sei comparar.
EP – Mas a avaliação que acaba de fazer, do cinzentismo. É um cinzentismo geral?
- É um cinzentismo que se estende em geral. Quem é ali a pessoa? Havia ali um ministro, que era o António Costa, que tinha a sua autonomia. Bem, a começar pelo ministro do Trabalho, que é uma tumba, a acabar na ministra da Educação, cuja espontaneidade expressiva...é isso. Falta espontaneidade expressiva aos ministros. São muito simpáticos, podem ser muito simpáticos pessoalmente.
ARF – E até inteligentes.
- Claro. Mas não é isso. Há qualquer coisa que faz com que eles não se manifestem em sorrisos nem sejam espontâneos. Ora isso é o sinal de que eles não pretendem sequer seduzir as pessoas.
EP – E isso passa para os portugueses? Esse cinzentismo passa?
- Passa com certeza.
EP – E pode ser o ponto fraco do Governo?
- Não, há outros. Ponto fraco do Governo é o facto de não ter ideias. Esse é o ponto fraco do Governo. Mas que passa, passa. Repare que há aqui um paradoxo muito grande aparente. O facto de haver manifestações e manifestações não só na Educação mas também em outros campos do trabalho, como os funcionários públicos e as sondagens darem sempre uma vantagem muito grande a José Sócrates. As pessoas estão perdidas, as pessoas e o português por excelência é um ser que está sempre a hesitar. O desassossego do Pessoa é também uma passagem contínua de um sítio para o outro, de um sítio para o outro. Estão sempre a hesitar. E quando aparece alguém que se mostra determinado, forte, etc, a pessoa fica fascinada. Aconteceu com Álvaro Cunhal, aconteceu com Cavaco Silva. Quando aparece assim uma pessoa que sabe o que quer. Pode saber muito pouco, pode ser estreitíssimo, mas sabe o que quer e é dirigente e tem a aura de ser dirigente.
ARF – E os portugueses ficam deslumbrados com esse cidadão?
- Absolutamente. Ora a identificação que os portugueses fazem com o Sócrates, para as sondagens darem os resultados que dão, vem de uma identificação pessoal. Não vem de uma identificação com a política geral do Governo. Porque logo ao lado as sondagens sobre a política do Governo não correspondem a essa sondagem sobre Sócrates.
ARF – Exactamente. É diferente.
- É portanto qualquer coisa de pessoal. É uma relação pessoal. Enfim, ali temos uma referência. Agora, nós que não temos referência de nada, sobretudo do futuro que aí vem, há ali uma pessoa que não só sabe ou parece saber o que quer como está contente. Ainda para mais está satisfeito previamente com o futuro que vai vir. Seguimos uma pessoa assim.
ARF – Somos um bocado fatalistas nisso. É o Salazar, o Cavaco, o Cunhal, agora é o Sócrates e agora não há na oposição ninguém com esse espírito. Uma pessoa que nos inspire essa admiração. O homem ou a mulher estão contentes nós vamos segui-lo de forma acrítica, um bocado como a carneirada, não é?
- É mas também é outra coisa, sabe? Não é só carneirada no sentido pejorativo. É também necessidade de um líder e um líder é um chefe político que tem propriedades muito importantes como o de condensar, atrair uma série de forças e poder utilizá-las para o bem da comunidade. E pode deixar de ser líder, como em certas sociedades, meses depois. Mas durante aqueles meses em que foi líder é uma personagem venerada e que é necessária para a comunidade.
EP – Não se percebe muito bem. Cá está, é a mentalidade dos portugueses ou talvez por não haver uma oposição forte. Se por um lado se manifestam nas ruas contra as políticas do Governo, não só na Educação, por outro quando há uma sondagem o primeiro-ministro continua a subir. O que é que se passa na cabeça dos portugueses?
- É isso que eu quis explicar, enfim, na medida em que isso é possível. As pessoas identificam-se enquanto egos. Quer dizer, eu na minha pessoa sou uma pessoa insegura, incerta, cheia de hesitações, não sei o que fazer e tenho ali, eu, no fundo, identifico-me pessoalmente com o Sócrates.
EP – Nisso José Sócrates é bom?
- Muito bom. Perfeito, como sabe. Não é que seja um grande sedutor, é um bom orador, energeticamente contagiante, ora os portugueses estão ávidos de carisma. Não é que ele tenha carisma, mas o carisma é-lhe atribuído. E portanto recebe-se o carisma por refluxo. É aquilo que se dá e o que se recebe.
ARF – Isso não é também pelo facto de os portugueses terem medo de existir? É verdade isto? Precisam de alguém que tome conta deles, que os proteja, que lhes indique o Governo?
- Eu acho que é verdade e tem raízes históricas muito grandes e que foi sedimentado fortemente durante o salazarismo e que tem a ver com qualquer coisa que existe na sociedade portuguesa. Que é o facto de o português não atingir a maturidade.
EP – Precisa sempre do outro?
- Precisa sempre do outro, há qualquer coisa de adolescente no adulto, na sua estabilidade emocional, emotiva, no seu poder de iniciativa, no seu poder de risco em relação a si próprio.
EP – Podemos dizer que esta não é só uma crise económica?
- Está a falar de Portugal?
EP – Sim.
- Mas qual crise. É que agora nós temos duas, três. Antes da crise mundial já havia uma crise em Portugal. Agora já não há porquê?
ARF – Agora são muitas crises.
- É, não é?
ARF – E esta está a assustar muito mais as pessoas.
- Claro, porque já estavam assustadas e esta não depende de nós. Vamos ver, Agora há um embate, uma espécie de combate entre o sorriso do Sócrates e a crise mundial.
ARF – Agora vamos ver como se resolve.
- Bem, estamos a ver já as primeiras transformações. É que o sorriso já esmoreceu de há uns dias para cá.
EP – E no próprio Governo, não é?
- O Governo nunca teve sorrisos, excepto o ministro Lino, que ri de vez em quando fazendo gafes.
ARF – Voltando à Educação. Sempre tivemos um grande défice na Educação. Os alunos são mal preparados no liceu, chegam à universidade mal preparados e chegam à vida real mal preparados. Este processo nunca foi resolvido nestes anos de democracia. E cada vez está pior, não está? De preparar as pessoas para terem um olhar lá para fora? Como professor universitário não acha isso?
- Eu não posso falar ainda porque está a ser desenvolvido, está a começar a reforma universitária, mas no que diz respeito à reforma do ensino secundário eu acho, hoje acho que é um desastre. Lamento profundamente, tenho uma amargura profunda. Olhe, eu aí tenho uma amargura pelo meu País. Realmente. Realmente eu esperava qualquer coisa, e espero ainda não sei como. Porque é isso que vai mudar o País. Nós vimos de muito longe, de muito longe de analfabetismo, de iletracia, de pobreza. Somos um País secularmente pobre em tudo. Mentalmente e materialmente pobre. E era uma maneira agora de se transformar tudo.
ARF – Foi uma oportunidade perdida?
- Estou convencido que as reformas que estão a ser realizadas não vão transformar o nosso País.
ARF – É muitas vezes acusado de ser um pessimista por aqueles que não gostam de ouvir algumas verdades. É pessimista, optimista, isso pode-se classificar assim o que diz e analisa sobre a sociedade portuguesa?
- Eu já me expliquei várias vezes sobre isso. Eu acho que pessimismo, optimismo são atitudes que se têm em relação a uma linha histórica qualquer. Se se está convencido que essa linha vai para pior é-se pessimista. Se não é-se optimista. Mas são atitudes. Saber se intrinsecamente se é optimista ou pessimista, eu estou convencido que é muito difícil encontrar verdadeiros pessimistas. Porque aqueles que são pessimistas e que segregam, nos seus livros, nos seus artigos o pessimismo no fundo estão a alimentar o seu optimismo visceral, vital, que é de viver, é de gostar de viver com essa actividade de ser pessimista. Mais nada.
EP – Há pouco falava nos 40 anos que esteve fora de Portugal, nos anos que viveu em França, País em que se licenciou e doutorou. Chegou a Portugal em 1976 e fez parte do Governo provisório. Como é que foi recebido quando cá chegou pela comunidade filosófica?
- Não havia.
EP – E por outros sectores académicos?
- No fundo não havia comunidade filosófica. Tenho unicamente a lembrança de ter sido muito bem recebido pelo Fernando Belo, o professor Fernando Belo, que está jubilado agora. E mais ninguém, mais ninguém. Aliás, eu não estava ligado, nem em contacto com a comunidade filosófica. Eu era assessor do secretário de Estado.
ARF – Em 1976. Veio e foi-se embora outra vez.
- Foi.
ARF – As comunidades reagem mal às pessoas que fazem a vida lá fora, reagem mal aos estrangeirados? Faz parte também da forma como encaramos o mundo, o lá fora? É inveja do sucesso?
- Quando a pessoa vai lá para fora e vence. Porque há muitos portugueses e houve muitos portugueses que foram lá para fora e não venceram. Até acabaram muito mal. E eu conheci, até pessoas com talento. O exílio, quer seja forçado ou voluntário, é muito difícil, é muito duro. Muito duro. E há os que viviam, por exemplo, em Paris e constantemente existiam na Avenida da Liberdade em Lisboa. O que lhes interessava. Quer dizer, nunca foram contaminados, nunca tiveram um embate com uma sociedade extremamente dura, se bem que fossem bons tempos, os tempos do gaulismo. Dura porque era uma sociedade fechada também para os estrangeiros, era muito difícil entrar em famílias francesas, conhecer o modo de vida francês, por dentro. Mas como é uma sociedade, uma cidade extraordinária, Paris, havia sempre um cosmopolitismo, para empregar esta palavra, que era absolutamente extraordinário. Agora, isso para dizer o seguinte. As pessoas tinham inveja dos que iam lá para fora. Nós deixámos de ter aquilo que em psicanálise se chama os benefícios secundários da neurose. Quer dizer que não temos a almofadinha da mamã, estamos mal com a noiva ou estamos mal com a namorada corremos logo para a almofadinha da manhã. É um exemplo caricato mas é isso. Que nós tínhamos aqui, que eu tinha aqui. E quando se vai lá para fora deixa-se de ter.
EP – Ainda hoje é assim.
- Ainda hoje é assim. Ainda há os benefícios secundários. É pena.
EP – Eu estou a perguntar se ainda hoje é assim.
- Não. Já é diferente. Primeiro, a comunidade portuguesa agora é muito diferente porque é uma comunidade de segunda geração, terceira geração.
EP – Foi considerado um dos 25 grandes pensadores de todo o mundo por uma conceituada revista francesa. Como é que reagiu a isto e sendo em França?
- Já não reajo, isso é uma coisa. Há 25, há tantos, tantos que não estão lá, portanto não vale a pena falar disso. Há tantos, tantos.
EP – Vale a pena porque é um pensador português e foi a França, o País onde estudou e viveu que lhe dá este mérito.
- Sim. E então? O que é que quer saber? Se eu gostei?
EP – Se gostou.
ARF – Teve alguma reacção negativa em Portugal? Esse facto levou as pessoas a encarar o professor José Gil de uma forma invejosa?
- Ah sim. Até houve um episódio que não foi muito agradável com um grande amigo, que não vale a pena estar a evocar. Houve um episódio desse tipo porque, enfim, sempre histórias de inveja.
ARF – Inveja, sempre.
- Sim, são histórias de inveja.
ARF – Há bocado estávamos a falar da crise e perguntou qual delas, porque há várias crises. Mas esta crise económica e financeira mundial que nos está a atingir em força, apesar do sorriso do primeiro-ministro, não é uma oportunidade para nós alterarmos a nossa forma de estar no mundo e estar na vida?
- Claro, teoricamente pode ser, mas acha que vai ser? Nós vamos ser obrigados a viver de outra maneira. Comos e sabe, ninguém sabe nada da crise. Mas suponhamos que realmente a crise vai durar dez anos, ou vai durar quinze anos. Quinze anos é muito tempo e nós vamos ter de mudar, vamos ter de mudar de maneira de viver, a nossa comunidade vai modificar-se, a relação ricos/pobres vai modificar-se em Portugal. Em quinze anos de crise vai haver muita coisa que se passará, muita água que passará debaixo das pontes com certeza. E nós vamos ter de nos adaptar. Agora, o que é que significa crise durante quinze anos? Se vai haver muita coisa que vai acontecer. A minha ideia, a ideia de toda a gente quando diz uma crise durante quinze anos é que vai ser cada vez pior, lentamente, no sentido de que nós vamos perdendo os pequeninos privilégios, a pobreza vai aumentar, vai atingir cada vez mais classes médias.
EP – Mas ai pode vir outra carga de pessimismo.
- Pode vir até muita outra coisa, sabe.
EP – Ou seja, os portugueses têm motivos para serem pessimistas?
- Têm. Mas que portugueses? Sabe que venda de carros de alta gama aumentou.
ARF – O fosso entre ricos e pobres aumentou imenso.
- E pior. Quer dizer, melhor. Aumentou e esse fosso que era encoberto, que se escondia, por várias razões, até porque os pobres escondiam, esse fosso vai aparecer à tona. E quando aparecer à tona vai ser uma das realidades quotidianas da nossa vida. E isso vai modificar muito a nossa maneira de percepcionar o outro, o outro português e de nos percepcionarmos nós mesmos enquanto colectividade. Não sabemos o que vai acontecer.
ARF – Essa realidade vai aumentar os laços de solidariedade entre os portugueses? Perceber o outro de forma diferente?
- É possível. A sociedade portuguesa guarda um capital muito forte ainda do que se perdeu muito nas sociedades hiperdesenvolvidas ou as sociedades europeias. Que é o capital afectivo. Pode parecer, e é verdade que houve uma diminuição dessa afectividade social. Mas quando um estrangeiro vem a Portugal e vê os portugueses e vê como é recebido, tratado, falado reconhece, percebe isso, percebe que há ali qualquer coisa que já não tem no seu País. E isso chamo uma afectividade colectiva que existe cada vez menos, como sabe nas grandes cidades portuguesas. Mas que Portugal tem ainda.
ARF – É um capital.
- É um capital que está a ser desbaratado e está a ser desbaratado entre outras coisas porque nas grandes reformas com um modelo de gestão e da modernização não há lugar para esse capital afectivo.
ARF – Refere-se a que reformas?
- Reformas da modernização, que não são só portuguesas, de toda a sociedade europeia. Mas em Portugal, que quer ser realizada e posta em prática por estes governantes de hoje.
EP – Que países é que podíamos ter como referência?
- Como referência? Não sei. Eu não sei que referência. Mas se está a falar ainda em capital afectivo possivelmente a Irlanda, onde isso existe.
ARF – E isso tem reflexo na vida do País e do seu desenvolvimento.
- Com certeza.
ARF – O professor diz que Portugal não tem um projecto de futuro. É verdade isto?
- Isso é evidente. É isso mesmo que não existe numa política. Veja. A política da modernização é uma política que está a crer no fundo alargar um certo espaço presente em que as relações de gestão, as relações entre as pessoas dentro de uma empresa, de uma instituição são determinadas por avaliações, por simplificações de actividades, pela produtividade, pela deslocalização do trabalho. Nisso não se toma em consideração absolutamente a questão afectiva. Isto poderá fazer rir. Mas que faça rir é que é pena. Mas quando se fala, por exemplo, em alargar o período em que a mulher pode ficar em casa depois da maternidade nós estamos a falar de uma afectividade que é tomada em conta pelo Estado. E isso é muito importante.
ARF – E o marido poder ficar em casa também.
- Isso. E ter em conta a afectividade, tão premente nos portugueses hoje, ainda, é fazer com que precisamente se corrijam todas as desumanizações que implicam critérios, como os critérios de avaliação.
ARF – Como estamos a ver nos professores.
- Claro.
ARF – E agora vai chegar também aos professores universitários.
- Vai ser isso.
EP – A propósito da afectividade. Na mensagem de Natal do primeiro-ministro, além de se falar no ano difícil, Sócrates agradeceu os sacrifícios feitos. Há uma tentativa de criar laços afectivos com os portugueses?
- Possivelmente. Mas eles não sabem é o que é a afectividade. O discurso do primeiro-ministro é um discurso absolutamente frio. Aquilo é retórico. Mesmo que ele sinta. Ele não está com as pessoas. Estar com as pessoas é precisamente o contrário, é ter uma palavra, saber que aquilo é uma pessoa, antes de ser um elemento ou agente político ou eleitoral. É uma pessoa. Claro. Agora há a política. Como é que eu vou fazer entrar a pessoa dentro da política, tudo isto são problemas que ele não põe.
ARF – Como é que este povo e estas pessoas votam normalmente à esquerda? O que é que a esquerda significa para as pessoas? Ou não entendem o que é esquerda e direita?
- Eu acho que isto tem a ver com 25 de Abril ainda. Não por ser o 25 de Abril. Mas tem a ver no fundo com o facto de o 25 de Abril ter modificado completamente uma desastrosa história da nossa sociedade. Há sítios no Marão em que se divide o tempo cronológico entre no tempo em que eu não comia bifes e depois do 25 de Abril é o tempo em que eu passei a comer bifes. Bom. E quem trouxe os bifes? Foi a esquerda. Mas não foi só os bifes. Os portugueses gostam da liberdade. E vê-se, viu-se logo quando puderam votar. As pessoas não são parvas.
EP – Mas como é que essa esquerda, a do 25 de Abril e a da agora, está?
- Pois. A esquerda está pelas ruas da amargura. Quase. Quase. Só não está porque a direita ainda está pior. O melhor aliado da esquerda é a direita.
EP – A direita precisa dessa figura de líder?
- Absolutamente. Precisa de uma figura de líder. Não creio que a doutora Manuela Ferreira Leite seja uma líder. Poderá ser tudo, do ponto de vista da competência, mas não tem qualidades de líder e qualidades políticas. E vamos assistir ou à sua substituição ou a mais um triunfo por negação de José Sócrates.
ARF – Agora a União Europeia, em que Portugal está desde 1986. A UE vai no bom caminho ou está a cometer erros históricos que podem ser graves no futuro próximo?
- Tem cometido muitos, como sabe. Tem cometido muitos. Agora, resta saber o que se quer da Europa. E voltamos sempre à mesma questão.
ARF – É federalista?
- Eu sou, sim, sou. E até por um federalismo tal que pudesse fazer coexistir uma Europa sem fronteiras geopolíticas com uma Europa que possa ter o peso económico que sustenha toda uma cultura da Europa que se está a perder. Quero eu dizer. A Europa é um território, se quiser, que fez a história, que fez a inteligência do homem. É um território e é mais do que um Estado, uma superpotência. É muito mais do que isso. Há qualquer coisa na Europa que faz dela uma fonte permanente de invenção. E agora estamos a ser invadidos pela cultura de massa americana. E isso é um drama para nós todos.
EP – É uma não-afirmação?
- É uma não-afirmação da Europa. Absolutamente. O drama, o dilema é que para que haja afirmação da Europa é preciso que ela se torne numa superpotência militar, económica. E isso é capaz de acabar com a Europa e fazer da Europa um Estado Nação banal, federal. Temos de inventar uma nova Europa.
ARF – Esta Europa que conhecemos é uma Europa fortaleza. Tem medo dos imigrantes. Também tem medo do fora, de tudo o que vem de fora.
- Claro. Tem medo. Nós vivemos numa espécie de equívoco quase realizado. Por exemplo. A questão da Turquia. Do ponto de vista dos princípios nós temos de admitir que a Turquia entre para a União Europeia. Do ponto de vista prático nós não podemos deixar entrar para a Europa um País que não segue as regras democráticas. E que por outro lado pode ser realmente uma via de entrada do fundamentalismo.
PERFIL
José Gil, autor de várias obras sobre Filosofia, Artes, Dança e Literatura, nasceu em 1939 em Muecate, Moçambique. Aos 18 anos foi para França onde se licenciou em Filosofia na Faculdade de Letras da Sorbone, em Paris, em 1968. Anos mais tarde doutorou-se em Filosofia na Universidade Paris VIII. Em 1976 regressou a Portugal e foi assessor do secretário de Estado do Ensino Superior do IV Governo Provisório. Em 1981 entrou na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa como professor convidado, onde hoje é professor catedrático.
António Ribeiro Ferreira (Correio da Manhã), Elisabete Pato (Rádio Clube)
terça-feira, 16 de dezembro de 2008
Votos para Zé Muacho...

Este país (dos aeroportos, TGV´s, Luso Pontes e contentores, BPN´s e BPP´s, Felgueiras, Torres, Sá Fernandes e Loureiros, magalhães e popós-eléctricos, Casa Pia (poucos dentro e muitos fora), velhinhas e freiras a serem presas por pequenos delitos enquanto os verdadeiros criminosos são mandados para casa, idosos a morrerem de fome em tugúrios a cair enquanto se distribui apartamentos e dinheiro a rodos por traficantes, drogados e por quem nunca quis e não quer trabalhar, Saúde, Justiça e Educação com os maiores orçamentos da Europa com os resultados que todos sabemos, EDP´s com lucros fabulosos mas que o regulador diz que as tarifas deviam aumentar 30%, Galp´s cujos preços sobem com o aumento do crude mas que quando o mesmo desce o regulador afirma que os preços não baixam porque o que interessa é o preço do produto refinado, BdP´s que a única coisa que vigiam são as suas reformas douradas, etc., etc.,) começa a exalar um fedor superior ao que se sentia nos últimos anos do chamado Estado Novo...
Para a queda do anterior regímen dei algum contributo, pequeno certamente, mas era o que estava ao meu alcance.
Agora que sinto que o actual, de tão podre, com um pequeno empurrão pode ser obrigado a regenerar-se, apetecia-me também fazer alguma coisa.
O quê, não sabia, mas, há uns dias ao ler num blog que o autor sonhava em promover um “golpe-de-estado”, só que para além do medo que tinha da ASAE não sabia como, deu-me o alento de que necessitava.
Golpe-de-estado, logo armas; armas? Armas? Oh diabo, não tenho!
Lembrei-me então de que em tempos muito distantes tinha possuído uma fisga; vai daí, corri para o sótão e comecei e remexer os baús velhos; depois de muito lixo e memórias já esquecidas, voilá, a fisga! Já estava armado!
No entanto a felicidade que me possuiu, cedo de esfumou; soprado o pó, estico as borrachas e, paf!, de ressequidas, partiram! Desilusão, amargura: estava desarmado novamente...
Infeliz, passei dias a tentar encontrar uma solução; pensei, pensei e nada.
(eu sei que devido à vida desregrada que levo, nada condicente com a via para o admirável mundo novo que está em curso, já muitos neurónios fundiram; tal não é de estranhar dado que eu fumo, delicio-me com um bom cognac, bebo vinho às refeições e barro o pão com manteiga, devoro queijos da Serra, Serpa e Azeitão, adoro presunto de Chaves e bons enchidos alentejanos, prefiro cerveja a bebidas light , bebo água sem sabores e, heresia das heresias, não fumo charros nem me drogo e não arranco de empurrão. Perdoem-me, tentem compreender este pobre decadente, que eu prometo ficar longe dos vossos filhos.)
Mas voltando à vaca fria; armas, onde as encontrar?
Atentos ao meu desespero (ou se calhar para se verem livres de mim) alguns amigos disseram: “Eh pá, se queres uma arma vai a uma dessas Quintas das Fontes ou Bairros das Boavistas, que é coisa que lá não falta.”
Felicíssimo, agradecido pela ajuda, comecei a planear a incursão; sim, não se vai a um sítio daqueles sem preparação.
Lembrei-me que há uns tempos atrás, algumas figuras de vulto desta praça, por lá tinham feito uma passeata e tinham regressado vivos e com todos os bens, coisa que nem sempre acontece a outros cidadãos, táxis ou até à polícia. Depois de alguma pesquisa encontrei a solução.
Assim, com uma t-shirt branca na qual tinha pintados dizeres como peace, love, somos todos iguais, black is beautiful (pelo sim pelo não acrescentei também gitanes are very good, too), cravo vermelho na mão, sorriso parvo na cara (tipo António Costa) e assobiando o último rap, destemido por fora mas receoso por dentro, para as ditas Quintas eu fui.
Lá chegado, apesar de estar fardado à maneira, cedo pressenti que algo não estava a correr bem; mimoseado com alguns piropos não muito abonatórios da minha pessoa bem assim como de algumas sugestões do uso que gostariam de fazer de algumas aberturas do meu corpo, apercebi-me então que, levado pelo meu entusiasmo, tinha cometido um erro grave: faltava-me o apoio.
As pessoas gradas e importantes, quando visitam aqueles locais, vão às manadas e com um batalhão de repórteres atrás (aliás só lá vão para aparecer nas TVs e debitar coisas que nem eles acreditam).
Eu estava sozinho, nem uma pequenina Kodak apontada para mim, e a ameaça de passarem das palavras aos actos ia crescendo, sem que ninguém levasse em conta o valor das mensagens que eu orgulhosamente ostentava no peito; com o temor quase pânico, comecei a pensar que isto de querer fazer uma revolução tinha os seus perigos!
Quase já acossado, apavorado, corri para um sítio onde a concentração de BMW e Mercedes topo de gama era maior e junta à qual estava um grupo de nativos que me pareceu ser menos perigoso, gritando: “Meus, mim querer comprar arma!” (não domino muito bem a língua local)
Iniciadas as negociações rapidamente chegámos ao ponto de ajustar a mercadoria que eles podiam disponibilizar (a oferta ia desde mísseis, passando por shot-guns até à singela ponta-e-mola) à minha disponibilidade financeira; na altura, dado que entidades menos bem comportadas têm tido direito a toda a espécie de subsídios, telefonei ao Teixeira dos Santos, mas, não tendo sido bem sucedido (ele disse-me que os pobrezinhos do BPP lhe tinham levado os últimos tostões), acertámos a compra de uma pequena pistola; enfim, rejubilei, o primeiro passo em direcção ao derrube do poder estava dado!
Antes de pedir o salvo-conduto para me poder retirar sem problemas, ao inspeccionar o trabuco que tinha acabado de comprar, constatei que o mesmo não tinha munições: “Oh meus, o que é isto?”
Depois de me explicarem que eu só tinha pedido por uma arma, lá reiniciámos as negociações para que eu pudesse adquirir algumas balas; ao pretender obter pelo menos um carregador cheio, começaram as dificuldades.
Interrogatório cerrado, todos ao mesmo tempo, gritando: “Para que é que queres tanta munição? Quantos são os membros do teu agregado familiar (incluindo a sogra)? Quantos inimigos tens (excluindo os membros do Governo, oposição e toda a classe política)? Queres fazer-nos concorrência?
”Com muito esforço, depois de muito esbracejar para os tentar calar, lá consegui fazer-me ouvir: “Meus, é para dar início a um golpe-de-estado”!
Ao ouvirem tal, o silêncio que se seguiu gelou toda a Quinta e arredores, parecendo que o tempo tinha parado e a terra deixado de rodar; as faces deles empalideceram para rapidamente enrubescerem (na realidade não vi, mas suponho que foi isto que se passou por debaixo da pele); empertigaram-se, fuzilaram-me com os olhos, e o maior deles, qual Adamastor, vociferou: “Ó desgraçado, escória humana, ser abjecto (as palavras não foram bem estas, foi mais para o vernáculo), tu queres destruir este paraíso?”
Eu minguei, encolhi, as cuecas ficaram um bocadinho húmidas; com voz trémula, tentei argumentar, falar dos escândalos, das esperanças desiludidas, bláblá, bláblá, mas quando pronunciei as palavras socialismo e revolução o rugido que se fez ouvir, quase me siderou:
“Ó filho de uma mula sem cabeça (apercebi-me logo que era comigo, não com o inginheiro) então tu não vês que a revolução já está em marcha, que o socialismo está na sua máxima pujança? Olha à volta, burro capado, vês os carros, vês as caixas de multibanco arrombadas, vê as jóias que tenho ao peito, vai ver ao plasmas que tenho em casa, tudo gamado aos ricos para benefício dos pobres; se isto não é socialismo, se isto não é redistribuição da riqueza o que é então?”
Ia abrir a boca para falar, mas atendendo ao desenrolar dos acontecimentos, achei por bem ficar calado; aliás ele nem deixou, agora mais calmo, continuou a arengar:
“Ó filho de um cachorro que até a sarna despreza, és um ignorante que não mereces a classe política que tens! Tu não entendes nada! Porque é que julgas, por exemplo, que se alterou o código penal? Hã, hã, diz lá?”
“Por razões economicist...”, pretendi retorquir...
“Piolho coxo das partes íntimas, nada disso! Incapazes da implantação do socialismo por causa das forças capitalistas do bloqueio (desconfio que este tipo esteve nalgum congresso do PCP ou BE) a nobre classe política decidiu delegar em nós a tarefa da socialização de Portugal! Para que a revolução avance, não podemos ser presos, temos que estar livres! Roubando eles por um lado, nós por outro, somos o garante de uma futura sociedade igualitária sem classes!
Parecendo-me que as águas estavam mais calmas, menos encolhido, mais húmido, baixinho, atrevi-me: “Mas eles não redistribuem; eles comem tudo e não sobra nada.”
“O quê?”, gritou o matulão... mas ficando logo de seguida pensativo.
“Agora vou ter que pensar sobre isso; dá cá a pistola e desaparece daqui, rato de esgoto com hemorróidas (era comigo, não com Jaime Gama).
” Sem dinheiro, sem pistola, com as cuecas em estado lastimoso, apressei-me a obedecer.Chegado a casa, olhando-me ao espelho, disse para os meus botões (que por acaso era um fecho eclair): “Falhado, como queres iniciar um golpe-de-estado se nem uma arma consegues adquirir”; juro, algumas lágrimas debitei.
Depois das necessárias abluções, retemperadas as forças, sentei-me em frente ao LCD (é menos tentador para os agentes da socialização do que o plasma) para pensar; como para pensar preciso de estímulos inteligentes, liguei nas novelas da TVI (o canal 2 ou os Contemporâneos também me ajudam).
A palavra armas não me saía da cabeça; como conseguir uma... Num dos intervalos das novelas, ao correr canais, deparo-me com um programa a preto e branco no qual um gadelhudo cabeludo, fardado à militar bêbado, exclamava: o voto é a arma do povo!
Qual Arquimedes, mesmo não estando no banho, gritei: Eureka!
Aqui estava o que me faltava para poder levar os meus desígnios em frente: O VOTO!
O voto... mas se o voto é uma arma, como é que a mesma funciona? A minha cabeça fervilha, as orelhas já fumegam, os dentes já me doem de tanto ranger... Como é que aquilo é uma arma?
Não sendo praticante há mais de duas dezenas de anos, a recordação que eu tenho do Voto, é que o mesmo é um pedacinho de papel com uns bonequinhos e quadradinhos impressos no qual é suposto pormos uma cruzinha e depois enterrá-lo numa urna; como não me lembrava de nenhuma guerra, intentona ou agressão com utilização de votos, fui fazer pesquisas nas enciclopédias e até na net ; nada! Virei-me então para aqueles amigos que não falham uma votação e pedi-lhe que esclarecessem!
Eles lá tentaram, mas eu não percebi nada; contaram-me eles que ao votar em determinada força politica em detrimentos de outras, estavam a apoiar quem mais prometia ajudá-los sendo assim o voto como que uma arma, pois que atirava os oponentes para uma espécie de limbo.
Confuso, perguntei: “assim sendo, e tendo os portugueses disparado o voto em todas as direcções por mais de 34 anos como é que estamos todos pior de vida com excepção das classes ditas dirigentes e parasitas que os gravitam?
”Como ninguém me respondeu, lá voltei eu para o meu sofá e telenovelas; triste, acabrunhado, pois que aquilo que eu pensava pudesse ser a minha última tábua de salvação, mesmo que fosse uma arma parecia disparar na direcção errada.
Milhares de horas depois, muitas lágrimas vertidas assistindo aos dramalhões, insidiosamente, uma ideia começou a germinar; durante as minhas recentes pesquisas sobre o voto reparei que os partidos em que poucas pessoas votavam tinham tendência para desaparecer e com eles os políticos que lá se acolhiam; algumas vezes, para sobreviverem iam pedir asilo a outros mais votados; logo, esperto, cabecinha pensadora, concluí:
Político alimenta-se de voto! E político privado de voto fenece e já não tem força para comer mais nada!
Aleluia, os sinos já repicam, tinha a arma que me faltava: a abstenção ou o voto em branco!
Estou convicto que com uma abstenção elevada e/ou um número significativo de votos em branco alguém vai mandar parar o baile e exigir que as cartas sejam dadas de novo; eu sei, já os estou a ouvir, é uma acção perigosa para a democracia (há maior perigo do que o estado a que ela chegou? Até a vergonha já se perdeu)!
Alternativa? Olho, procuro, e só vejo as mesmas caras, com os mesmos vícios e desprezo pelo chamado povo; certamente há, mas as barrigas inchadas, as ancas mais gordas e os cada vez mais recheados sacos das benesses e contas bancárias não deixam ninguém chegar à frente.
Então porque não iniciar uma campanha, junto dos amigos e conhecidos, apelando à abstenção ou voto em branco?
A ser bem sucedida talvez algumas fendas se abram e gente honesta e com vontade de servir, e não de se servir, possa aparecer.
Se nós, vítimas do voto nada fizermos, nada vai mudar!
Cumprimentos,
Zé Muacho
(Comentário recebido reproduzido literalmente como podem ver neste post. Como gosto de partilhar o que é bom, com os meus agradecimentos, aqui fica de forma mais visível.)
sexta-feira, 3 de outubro de 2008
Para onde vamos...
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quinta-feira, 25 de setembro de 2008
Antes de Mais...

O que eu gostava de ver era, antes de tudo, uma explicação da CGTP para isto:
Líder do Partido Nova Democracia
Monteiro acusa CGTP de exigir percentagem da indemnização a trabalhadores
30.08.2008 - 17h13 Lusa
Líder do Partido Nova Democracia
Monteiro acusa CGTP de exigir percentagem da indemnização a trabalhadores
30.08.2008 - 17h13 Lusa
"O líder do Partido Nova Democracia, Manuel Monteiro, acusou hoje o Sindicato Têxtil do Minho de exigir aos trabalhadores de empresas ameaçadas de falência o pagamento de 18 meses de quotas e dez por cento das indemnizações em troca de apoio.Em Braga, Manuel Monteiro disse ter tido conhecimento directo deste tipo de exigências sindicais em casos de empresas em situação económica difícil em Vila Verde e em Guimarães: "Isto é prática corrente nos sindicatos afectos à CGTP", afirmou."
Ainda não consegui perceber se a acusação feita no dia 30 de Agosto por Manuel Monteiro, que acusou o Sindicato Têxtil do Minho de"exigir aos trabalhadores de empresas ameaçadas de falência o pagamento de 18 meses de quotas e dez por cento das indemnizações em troca de apoio," teve resposta…Como a CGTP em geral e o Mário Nogueira em particular já me fintaram o ano passado... repito a questão e o problema..
Confesso que estou um pouco baralhado… Sai uma notícia, da boca de uma das últimas pessoas em quem acredito seja sobre o que for, e não vejo reacções de quem de direito… No meu entender, seja claríssimo que essa reacção já vem tarde. É inadmissível que uma estrutura como a CGTP não responda de imediato a uma acusação deste tipo (entenda-se aqui o duplo sentido semântico de tipo: gajo e género). Será que é verdade? Se for, então, a CGTP terá que ser extinta após processo sumário; se não for, então o manelito (ou o zero à direita da vírgula, mas sem mais nada a antecedê-lo, isto é, 0, 0 = 0) já deveria ter sido contraposto de forma veemente e terá que ser levado a tribunal por uma série de crimes… Porquê que, (ainda?) não houve resposta, para mim é um mistério, mas… faz-me lembrar aquela ideia peregrina do sindicato que queria cobrar cotas aos não sindicalizados e aí hesito… Será que o homem é completamente louco ou há um fundo de verdade nisto? Paga-se a um Procurador-geral da República, a um Provedor de Justiça, a uma série de pessoas até, em última análise, chegar ao presidente Aníbal, que jurou cumprir e fazer cumprir a Constituição da República, e ninguém diz nada? Espero para ver… Mas ficarei atento, esta é daquelas que não se podem esquecer…
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Manuel Monteiro,
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terça-feira, 16 de setembro de 2008
Por uma vez estamos de acordo…

Alberto João Jardim defende que os partidos têm que se regenerar
16.09.2008 - 09h45 Lusa, PÚBLICO
Há muito tempo que, por exemplo, o prazo de validade dele já expirou…Sejamos honestos, desde quando é que o Alberto João diria que estava em pânico? E então o tal Partido Albertino Regionalista Sakashvillista Português?
Bem sei que vamos perder uma fonte inesgotável de motivos de riso, mas é para o bem da Madeira, do país e dos partidos… E esta ideia de referendar a Constituição… Não é nova, sabem quando foi feita a última vez e por quem? Dou uma ajuda, foi em 1933 e o chefe de então tinha um nome que começava por António… Creio mesmo que foi votado como o melhor futebolista português ou coisa que o valha…
Mas ainda bem que o homem tomou consciência, não vá um dia ser verificado pela ASAE e tenha que ser incinerado, por representar um perigo para a saúde pública..
segunda-feira, 8 de setembro de 2008
NASCEU QUEM???

Por que será que insiste nas fundações um grupo de governantes que começa sempre a fazer as coisas pelo telhado? Os últimos anos têm sido assim, deste governo e destes personagens já não se espera nada, nem outra coisa, só ouvir os nomes já cansa, como é que alguém pode esperar mudança se os ingredientes são os mesmos? Será e começou por ser, com certeza, mais uma passerelle para Sócrates & Cia se pavonearem e acenarem gratuitamente. Creio que na parte administrativa não faltará também o bom especialista Armando Vara… Assim sim, assim é que a coisa pública ficava completa e verdadeiramente bem servida…
segunda-feira, 1 de setembro de 2008
É preciso ter lata...

"O Governo respondeu à situação", reforçou, apontando que "o que se impunha é que se agisse, muito mais do que se falasse", e que o Executivo "falou pela boca de quem devia", designadamente o ministro da Administração Interna, Rui Pereira, pelo que considerou "sem qualquer fundamento" as críticas ao seu silêncio." No entanto, não é bem essa a verdade, ele só fala quando lhe interessa e só lhe interessa quando julga tirar dividendos dessas palavras, pois, na mesma ordem de ideias, quando andou a comerciar o malfadado Magalhães, os 400 milhões de euros para a educação e o diabo, não deveria ser ele a vender a banha da cobra, mas sim outro ministro, talvez o da economia, tecnologia, educação ou fosse lá quem fosse...
Depois, vem-nos dizer que a onda de insegurança foi apenas um sentimento??? Sinceramente, penso que é preciso ter muita lata, quer dizer, quando é para as coisas boas 0u supostamente boas, fala ele; quando é para queimar, são os outros que têm de dar a cara e não ele... Bela estratégia. Mas, mais, se não falou na altura para quê que fala agora?
sábado, 30 de agosto de 2008
O busílis…

Ainda não consegui perceber se a acusação feita no dia 30 de Agosto por Manuel Monteiro, que acusou o Sindicato Têxtil do Minho de"exigir aos trabalhadores de empresas ameaçadas de falência o pagamento de 18 meses de quotas e dez por cento das indemnizações em troca de apoio," teve resposta…
Como a CGTP em geral e o Mário Nogueira em particular já me fintaram o ano passado... repito a questão e o problema... será que vão exigir também percentagens dos ordenados aos professores desempregados?
Fica a pergunta e o aviso...
Como a CGTP em geral e o Mário Nogueira em particular já me fintaram o ano passado... repito a questão e o problema... será que vão exigir também percentagens dos ordenados aos professores desempregados?
Fica a pergunta e o aviso...

Confesso que estou um pouco baralhado… Sai uma notícia, da boca de uma das últimas pessoas em quem acredito seja sobre o que for, e não vejo reacções de quem de direito… No meu entender, seja claríssimo que essa reacção já vem tarde. É inadmissível que uma estrutura como a CGTP não responda de imediato a uma acusação deste tipo (entenda-se aqui o duplo sentido semântico de tipo: gajo e género). Será que é verdade? Se for, então, a CGTP terá que ser extinta após processo sumário; se não for, então o manelito (ou o zero à direita da vírgula, mas sem mais nada a antecedê-lo, isto é, 0, 0 = 0) já deveria ter sido contraposto de forma veemente e terá que ser levado a tribunal por uma série de crimes… Porquê que, (ainda?) não houve resposta, para mim é um mistério, mas… faz-me lembrar aquela ideia peregrina do sindicato que queria cobrar cotas aos não sindicalizados e aí hesito… Será que o homem é completamente louco ou há um fundo de verdade nisto? Paga-se a um Procurador-geral da República, a um Provedor de Justiça, a uma série de pessoas até, em última análise, chegar ao presidente Aníbal, que jurou cumprir e fazer cumprir a Constituição da República, e ninguém diz nada? Espero para ver… Mas ficarei atento, esta é daquelas que não se podem esquecer…
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